Coisas do Brasil 

O Método Biográfico em Ciências Sociais

A utilização do método biográfico em ciências sociais vem, necessariamente, acompanhada de uma discussão mais ampla sobre a questão da singularidade de um indivíduo versus o contexto social e histórico em que está inserido. Para Franco Ferrarotti (9) , por exemplo, cada vida pode ser vista com sendo, ao mesmo tempo, singular e universal, expressão da história pessoal e social, representativa de seu tempo, seu lugar, seu grupo, síntese da tensão entre a liberdade individual e o condicionamento dos contextos estruturais. Portanto, cada indivíduo é uma síntese individualizada e ativa de uma sociedade, uma reapropriação singular do universo social e histórico que o envolve. Se cada indivíduo singulariza em seus atos a universalidade de uma estrutura social, é possível “ler uma sociedade através de uma biografia”, conhecer o social partindo-se da especificidade irredutível de uma vida individual. Ou, como afirma Norman Denzin(10) , inspirado em Sartre, o homem “é um singular universal”.
Aspásia Camargo, ao defender a utilização do “método biográfico” para estudar a elite política brasileira, lembra que os ganhos iniciais dos estudos de História de Vida podem ser identificados em pesquisas sobre o comportamento desviante desenvolvidas pela Escola de Chicago. A autora, ao adotar a abordagem de história de Vida, concentrou-se em estudar o que chamou de winner circle, um pequeno número de pessoas que formulam e implementam políticas estratégicas. Para ela, reconstituir suas Histórias de Vida é o melhor caminho para conhecer estes indivíduos que tomam decisões estratégicas, suas origens, seus instrumentos para controlar e manter o poder; seus valores e interesses. Uma das dificuldades desta abordagem, apontada pela autora, é que se limita àquelas pessoas que “querem falar”. Para muitos membros da elite, o silêncio e a discrição são a regra pois “quanto mais destacados e politicamente ativos forem os atores, mais conscientes são também do risco de conceder informações ‘verdadeiras’ sobre seu próprio desempenho ou de seus pares”(11). A autora aponta como seus melhores informantes os políticos aposentados, os excluídos, os exilados, os perdedores: aqueles que, ao contrário de temer o interesse do pesquisador, procuram denunciar injustiças, traições, corrupção e os interesses do grupo.
...[]Um estudo exemplar para discutir a relação indivíduo e sociedade a partir de uma análise de biografia é o de Nobert Elias, Mozart: sociologia de uma gênio(14). Esta análise é uma importante referência teórica para compreender o que um determinada trajetória diz sobre o momento histórico, cultural e político em que ocorreu, sobre comportamentos e valores que reflete ou antecipa e as condições sociais existentes para o aparecimento de um artista singular.

Nobert Elias estuda não apenas Mozart, mas a posição que o compositor ocupou na sociedade de sua época, as determinações que pesaram sobre seu destino pessoal e os constrangimentos que sofreu no exercício de sua criação. O autor pensa a liberdade de cada indivíduo inscrita numa cadeia de interdependências que o liga aos outros homens, limitando o que é possível decidir ou fazer. Elias busca compreender como o homem que se tornou o “símbolo do maior prazer musical que o mundo conhece” encontrou um morte prematura. Analisa os dois elementos que considera fundamentais para explicar o curso trágico da vida de Mozart: a relação com o pai e os conflitos com a aristocracia de corte.
Elias revela que as razões pelas quais Mozart se sentiu um fracasso só podem ser entendidas considerando-se o conflito existente na Áustria, e em quase toda a Europa da segunda metade do século XVIII, entre os padrões de uma classe mais antiga, a aristocracia de corte, e os de outra, a burguesia em ascensão. Na geração de Mozart, um compositor que quisesse ter sua música reconhecida e garantir a subsistência dependia de um cargo numa corte. Elias lembra que os músicos eram tão indispensáveis nos palácios dos príncipes quanto pasteleiros, cozinheiros e criados: tinham o mesmo status na hierarquia da corte.
Ao apresentar o modelo das estruturas sociais em que vivia um músico no século XVIII – e a posição dominante dos padrões cortesãos de comportamento, sentimento, gosto música e vestuário -, Elias demonstra o que Mozart era capaz de fazer como indivíduo, e o que não era capaz de fazer, apesar de sua grande singularidade. Mozart viveu o drama de uma artista burguês na sociedade de corte: a identificação com o gosto cortesão e a vontade de ter sua música reconhecida pela nobreza; e o ressentimento pela humilhação de ser tratado como serviçal pelos aristocratas da corte. Ao contrário do pai, nunca aceitou esta posição e, consciente do valor de sua música, queria ser reconhecido como igual (ou superior) por quem o tratava como inferior.
Nobert Elias chama a atenção para a curiosa contradição dos desejos dos outsiders: a tentativa de romper com o establishment e, ao mesmo tempo, a luta pelo reconhecimento e aceitação deste establishment. Para ser músico da corte, além de qualificações musicais, era necessário assimilar o padrão de comportamento cortesão. Mas Mozart não tinha as habilidades necessárias para conquistar os nobres: odiava bajulações, era franco, direto e até rude com as pessoas de quem dependia. Com pouco mais de 20 anos, desistiu de seu posto relativamente seguro de regente da orquestra e organista da corte de Salzburgo e foi ganhar a vida como artista autônomo, dando aulas de música e concertos para o público vienense, vendendo seu talento e suas obras em um mercado incipiente, predominantemente de aristocratas da corte.
Elias mostra que o conceito de gênio é aplicado a Mozart com os olhos do presente, já que esta noção surgiu muito depois de sua morte, com o romantismo, Na sua época, era muito difícil se estabelecer como artista autônomo e conseguir “dar rédea livre às sua fantasias”, como Mozart desejava. Elias, analisando a mudança na posição social do artista – do patronato ao mercado livre -, lembra que Beethoven, nascido em 1770, quase 15 anos depois de Mozart, conseguiu com muito menos problemas libertar-se de dependência do patronato da corte, impor seu gosto a um público pagante e alcançar sucesso com a venda de suas composições para os editores. Mozart antecipou atitudes e sentimentos de um tipo posterior de artista: o artista livre, que confia acima de tudo em seu talento, numa época em que a estrutura social não oferecia tal lugar para os músicos. Mozart nasceu numa sociedade que não permitia a existência de um artista individualizado e independente, “foi um gênio antes da época dos gênios”.

(9) Franco Ferrarotti. Histoire et Histoires de Vie: le méthode biographique
(10) Norman K. Denzin. “Interpretando as vidas das pessoas comuns: Sartre, Heidegger e Faulkner” em Dados-Revista de Ciências Sociais, R.J., vol. 27, no 1, 1984, p. 30
(11) Aspásia Camargo. “Os usos da História Oral e da História de Vida: Trabalhando com elites políticas” em Dados-Revista de Ciências Sociais, R.J., vol. 27, no 1, 1984, p. 14.
(14) Nobert Elias. Mozart: sociologia de um gênio. R.J., Zahar, 1994

Do livro: A arte de pesquisar – como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais, R.J. , páginas 36-38 – Mirian Goldenberg – Editora Record , 1997

Ontem e Amanhã

"Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito.
Um se chama ONTEM e outro AMANHÃ".

Dalai Lama

Sobre o trabalho

“Eles falam na dignidade do trabalho.
Pura mistificação.
O trabalho, para dizer a verdade, é uma necessidade para nossa pobre condição terrestre.
A dignidade encontra-se no lazer.
Aliás, noventa e nove por cento de todo o trabalho Realizado neste mundo é tolo ou inútil.”

Hermam Melville, em 1888 ao 68 anos de muita lucidez e experiência de vida.

Para refletir...

E perguntaram para DEUS : O que mais te intriga nos seres humanos?
Deus respondeu :

Eles fartam-se de ser criancas e tem pressa por crescer, e depois suspiram por voltar a ser criancas...
Primeiro perdem a saude para ter dinheiro e logo em seguida perdem o dinheiro para ter saude...
Pensam tão ansiosamente no futuro que descuidam do presente e assim nem vivem o presente nem o futuro...
Vivem como se fossem a morrer e MORREM COMO SE NAO TIVESSEM VIVIDO!


Reflita sobre isso...

Somente pessoas maduras, ou em processo de amadurecimento, pelo menos (isto inclui as crianças) tem o hábito de refletir !
Isto me faz lembrar de uma história:

O aprendiz perguntou ao mestre (rabino) :
Se pensar (refletir) fosse tão bom, por quê não fazemos isto o tempo todo ?

O rabino respondeu:
Se parássemos para refletir sobre tudo, não faríamos nada.
Para refletir, precisamos comer, para comer precisamos trabalhar !

Ela não está como a original, eu a li há muito tempo!

Sobre o assunto do trabalho, te digo:

Bom se pudéssemos ter o trabalho, quase como um fim lúdico, mas os jogos que aprendemos quando crianças, são todos de ganha-perde, e não de soma-soma, ou reparte-reparte... Aprendemos a competir desde pequenos !
Por isso, como já disse uma vez o grande filósofo do riso, "Chico Anísio" , uma vez: "Bom se a vida pudesse ser que nem um filme, e que começássemos do final".
Já começaríamos amadurecidos, e que, quando o filme voltasse, repartiríamos este com os outros, e erraríamos menos. Talvez, desse modo, do final para o começo, as pessoas já estariam mais aptas a ouvir o que o outro tem a dizer.
Se existe um criador, ele nos deu a chance de tentar fazer os dois, mais nem um nem outro somente ! Pois daí, cairíamos nos dois erros (se é que existem só estes dois) mais comuns entre nós !

Eu não sou a melhor pessoa indicada para dizer estas coisas (Não me sinto hoje, nem uma pessoa madura, nem mesmo uma pessoa educada !)
Mas afinal de contas, nada melhor que uma pessoa que vive este sentimento, para falar com o conhecimento de causa sobre ele !

Para você(s) refletirem : Não acho que um Hitler, faria uma Declaração Universal dos Direitos Humanos melhor do que esta que está aí. Mas para sermos realistas, quem iniciou o processo de paz no Oriente Médio, foi um General israelense que, no passado, invadiu a Palestina. Para não sermos maniqueístas, não existe um inimigo desse lado ou de outro, o inimigo de todos é a própria guerra!

Mundos Imaginados

Onkel Bruno era tio de minha mulher, um médico de família que vivia numa grande casa em uma aldeia alemã. A casa, ele herdara do pai juntamente com a clientela, e nela permaneceu por toda a vida. Durante esse tempo, a Alemanha foi governada por potentados de muitas colorações, imperiais, republicanos, nacional-socialistas e comunistas…
Sua casa, e o magnífico jardim em que ficava, eram o orgulho e a alegria de seus últimos anos.Ao admirar o grande carvalho que se erguia diante da casa, Onkel Bruno disse, em tom rotineiro: “Tenho que derrubar essa árvore; já passou do tempo”. Até onde pude perceber, a árvore aparentava boa saúde e não mostrava sinais de colapso iminente. Perguntei-lhe como tinha coragem de derrubá-la. Ele respondeu: “É por causa dos netos. Essa árvore vai sobreviver a mim, mas não a eles. Vou plantar uma árvore que eles possam aproveitar quando forem tão velhos como sou hoje”. Ele esperava que os netos herdassem o consultório e vivessem sem suas vidas naquela casa. Era assim que as coisa funcionavam no mundo que conhecia. Vivi-se para os filhos e para os netos. Os horizontes eram distantes, e era normal e natural antecipar cem anos no futuro, o tempo que um carvalho demora para crescer.
Quando eu estudava em Cambridge, Inglaterra, minha faculdade tomou uma decisão parecida. A estrada que chegava ao Trinity College, beirando o rio, atravessava uma magnífica alameda de olmos, plantada no século XVIII. Os olmos ainda eram belíssimos, mas já declinavam. Da mesma forma que Onkel Bruno, a faculdade decidiu sacrificar o presente em nome do futuro. A alameda foi derrubada e substituída por duas fileiras de mudas magricelas. Hoje, cinqüenta anos depois, as mudas atingem a maturidade. A alameda recuperou sua beleza e atingirá sua plenitude ao longo do século XXI. O Trinity College tem sido um importante centro de conhecimento desde sua fundação, no século XVI, e pretende continuar a sê-lo no século XXI…
[]…No mundo da informação, ao qual pertencem [os líderes dos setores de computadores e de software do Ocidente e do Oriente], cinco anos é um longo tempo; fortunas se fazem e se perdem em um ou dois anos. Não tem sentido elaborar planos que vão além de cinco anos, pois o crescimento da tecnologia da informação é imprevisível e o funcionamento do mercado livre ainda mais imprevisível.
[]…Parece que o mundo moderno vem se tornando crescente míope nos últimos tempos, como se o colapso das economias socialistas e as vitórias do livre-mercado tivessem tornado ilusórias as visões futuras de longo prazo.
[]…A ciência é meu território, mas a ficção científica é a paisagem de meus sonhos. No ano de 1995 transcorreu o centésimo aniversário da publicação de “A Maquina do tempo”, de H. G. Wells, taves o retrato mais sombrio do futuro humano jamais imaginado. Wells empregou uma história dramática para dar a seus contemporâneos a imagem de um futuro possível. Seu objetivo nao era prever, mas alertar. Ele estava irritado como o sistema inglês de classes, sob o qual havia sofredo pessoalmente, um sistema que dividia as pessoas emr ricos ociosos e pobres explorados, os ricos aproveitando os refinamentos da arte e da beleza enquando os pobres eram condenados a uma vida de ignorancia e feiúra. Wells avisava seus leitores, em particular seus leitores da classe alta inglesa, de que a grosseria desigualdade e injustiça de sua sociedade levava-os rumo ao desastre. Continuem nessa trilha, a história contava, e eis parq onde vão, a humanidade dividida em duas espécies, presas e predadores: os Eloi, cantando e dançando ao sol, e os Morlocks, fazendo as máquinas funcionarem no subsolo; os Eloi sem habilidades práticas e intelectuais, perdidas por causa da indolência, e os Morlocks a pastorear seus primos da superfície como gado, uma fonte conveniente de carne.
É impossível avaliar qual tenha sido a influência direta da obra de Wells sobre a história social da Inglaterra. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando trabalhava como cientista prestando assessoria técnica à Real Força Aérea, meu chefe, Reubem Smeed, formulou uma regra parq dirigir nossos esforços. A Regra de Smeed afirmava que é possível fazer coisas ou é possivel ficar com o crédito por elas, mas não ambos. Para ter eficácia em influenciar a política ou em mudar a sociedade, é preciso garantir que pessoas em posições de poder adotem nossas idéias como se fossem delas. Nunca é possível saber se nossa influência pessoal foi ou não decisiva. No caso de
Wells, sabemos que a “A Máquina do Tempo” se tornou um best-seller imediato, e que, por muitos anos, Wells foi o escritor de temas sociais mais amplamente lido na Grã-Bretanha. Wells e seus companheiros da Sociedade Fabiana pregavam incansavelmente a causa da justiça social. Sabemos que, durante os cinqüenta anos de sua vida produtiva – da publicação de “A Máquina do Tempo”, em 1985, até sua morte, em 1947 - , as desigualdades e injustiças sociais da sociedade inglesa desenvolvia uma consciência social. E sabemos que, nos cinqüenta anos transcorridos desde a sua morte, a Inglaterra reverteu gradualmente para um sistema de classes com desigualdades quase tão agudas como aquelas contra as quais ele lutara quando jovem e satirizara emseus romances. Baseado nessas evidências, julgo que, apesar da Regra de Smeed, podemos atribuir a Wells algum crédito pelas melhorias ocorridas na sociedade inglesa durante sua vida.
Wells derramou em “A Máquina do Tempo” sua angústia pessoal e seu distanciamento científico, sua compreensão impiedosa da espécie humana. Ele não foi o primeiro romancista a situar seus personagens, com suas personalidades e paixões individuais, no âmbito mais amplo da evolução biológica. Ele via a espécie humana como um experimento profundamente comprometido, fadado a fracassar devido a fraquezas internas, mesmo se não sucumbisse a calamidades externas. A história trágica do século XX não tornou a visão de Wells menos plausível. … O epílogo da “A Máquina do Tempo” vai além da violência e do cataclismo dos finais convencionais da ficção cientívica, da mesma forma que a cena final do Rei Lear supera as cenas finais repletas de cadáveres de Macbeth e de Hamlet para atingir uma quietude mais profunda. Como artista, Wells foi tão profílico e tão multiforme quanto Shakespeare. Como Shakespeare, escreveu tragédias e comédias e histórias. Difernetemente de Shakespeare, começou com tragédias e depois passou a comédias e histórias. Outras visões desagradáveis do futuro foram escritas por escritores menos talentosos do que Wells, mas nenhuma se igualou a “A Máquina do Tempo” como obra de arte.
Deste Wells, tivemos mais cem anos de ciência da qual aprender e mais cem anos de história para contemplar. Uma lição que aprendemos da ciência e da história é que o futuro é imprevisível. Apesar de sua educação científica como biólogo, Wells nunca imaginou as descobertas que, pouco depois de sua morte, dariam origem à nova ciência da biologia molecular e que dominarão a paisagem da biologia na entrada no novo milênio. Em sua “Pequena história do mundo”, Wells chamou os símbolos do nacionalismo de “deuses tribais do século XIX”, e não imaginava que tais vestígios de lealdade tribal sobreviveriam com virulência ainda mais intensa até o fim do século XX. Quando Wells tentou prever o futuro, como freqüentemente fez mais para o fim da vida, normalmente errou. Quando imaginou mundos futuros, empregando sua habilidade de romancista para alargar nossa visão e nos lembra de nossas responsabilidades, foi brilhante em seu sucesso.

Do livro: Mundos Imaginados– Freeman Dyson – Cia das Letras

Os paradoxos do nosso tempo

Agradeço ao Professor Mário Zan por me enviar o texto “Os paradoxos de nosso tempo”, de um autor desconhecido, que reproduzo hoje neste espaço. O nosso encontro se deu no Colégio Dom Silvério, quando lá estive recentemente para discussão do texto “Pais que temem os filhos”, publicado neste espaço, no dia dos pais, e comentado pela psicóloga Maria Letícia Barreto, com a simpatia e competência habituais. Seja quem for seu autor, não está só. Suas idéias refletem o que sentem muitas pessoas e suas preocupações ganham eco naquelas que constituem família e desejam um mundo melhor:
“O paradoxo de nosso tempo na história é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos; auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; gastamos mais, mas temos menos; compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; temos mais graus acadêmicos, mas menos senso; mais conhecimento e menos poder de julgamento; mais proficiência, porém mais problemas; mais medicina, mas menos saúde. Bebemos demais, fumamos demais, gastamos de forma perdulária, rimos de menos, dirigimos rápido demais, nos irritamos muito facilmente, ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, raramente paramos para ler um livro, ficamos tempo demais diante da TV. Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência. Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida. Adicionamos anos às nossas vidas, mas não vida aos nossos anos. Já fomos à Lua e dela voltamos, mas temos dificuldade em atravessar a rua e nos encontrarmos com nosso vizinho. Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior. Fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma. Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos. Escrevemos mais, aprendemos menos. Planejamos mais, realizamos menos. Aprendemos a correr contra o tempo, mas não a esperar com paciência. Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral. Temos mais comida, mas menos apaziguamento. Construímos mais computadores, para armazenar mais informações, para produzir mais cópias do que nunca, e temos menos comunicação. Tivemos avanços na quantidade, não em qualidade. Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta; de homens altos e caráter baixo; lucros expressivos, mas relacionamentos rasos. Estes são tempos em que se almeja paz mundial, mas perdura a guerra nos lares; temos mais lazer, e menos diversão; maior variedade de tipos de comida, menos nutrição. São dias de duas fontes de renda, mas de mais divórcios; de residências mais belas, e lares quebrados. São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade também descartável, ficadas de uma só noite, corpos acima do peso, e pílulas que fazem de tudo: alegrar, aquietar, matar. É um tempo em que há muito na vitrine e nada no estoque; um tempo em que a tecnologia pode levar-lhe estas palavras e você pode escolher entre fazer alguma diferença, ou simplesmente apertar a tecla Del. ”
O texto veio em boa hora para nos levar à reflexão sobre nossa época, principalmente porque estamos nas vésperas das eleições, quando somos obrigados a votar e devemos, dessa forma, decidir dar continuidade ou não a tudo a que assistimos nesses últimos anos e votar pensando naquilo que desejamos para o nosso futuro. O desejo do eleitor só surge quando escolhe seu candidato e, apesar da deficiênica deste sistema em representar a singularidade de cada um, o voto ainda é a única forma de tentar representar o desejo da maioria. Devemos arcar com seus resultados, sejam eles quais forem, sabendo que a maioria de nós só conhece os candidatos através de suas imagens na TV, pouco sabendo sobre suas atividades sociais e seus princípios éticos. Ainda devemos observar que a força da liderança verticalizada encontra-se em declínio, produzindo o sentimento de que nossa sociedade vive abandonada ou nas mãos de pessoas que legislam em causa própria, pouco preocupadas com questões sociais como moradia, educação e saúde.
Os jornais ilustram muito bem tais paradoxos quando denunciam o desejos dos magistrados por auxílio moradia, enquanto tantos moram nas ruas, quando deputados e vereadores agem em conformidade com seus interesses próprios indiferentes ao bem comum. Felizmente nem todos agem assim e devemos escolher em quem votar. Por isso é tempo de refletir e pensar, pensar muito. Pois seremos nós a viver tais resultados.

Estado de Minas – setembro 2000

A máquina do tempo

Newton sofreu do que hoje seria classificado por alguns psiquiatras de esquizofrenia. Marcado profundamente por ter nascido depois da morte de seu pai e pelo abandono da mãe, ele refletia seus sentimentos de perda no comportamento de colocar cada um de seus objetos pessoais sempre nas mesmas posições. Contrapondo-se ao famoso pensamento dos mistérios do Céu e da Terra de Hamlet de Sheakspeare, Newton propôs que todos os mistérios poderiam ser explicados e previstos desde que o todo pudesse ser dividido em átomos e que pudessem ser conhecidas as posições e a variação das posições destes átomos em um instante de tempo anterior e no tempo presente. A vã filosofia de Newton propunha então a possibilidade de pegar um ratinho atônito, retalhá-lo em átomos e posteriormente com a junção ordenada desses átomos, voltar a ter o mesmo ratinho. Por sua simplicidade e por se adequar muito bem à estrutura de poder da época, a teoria de Newton foi usada e apreciada tando pela sociedade industrial capitalista quanto pela marxista. De acordo com ela poder-se-ia sacrificar completamente a Natureza ou o ser humano, pois tudo pode ser decomposto e recomposto, sem limites, como uma máquina, cujo estado atual depende apenas do tempo. Ora, - deve ter pensado o zoólogo e geólogo Herbert Wells - se a natureza é assim porque não se cria uma Máquina do Tempo para se testar a teoria de evolução de Darwin, ou para viajar ao futuro? Surgiu então a obra prima da ficção científica: "The Time Machine". Um livro certamente inspirador, escrito há exatamente 100 anos e que condiz perfeitamente com a Relatividade de Einstein, só que Einstein tinha na época apenas 16 anos! Viajando ao ano de 802.701 o personagem de Wells encontra a Terra com a "natureza conquistada" mas com uma planície desértica e geométrica. A humanidade tornou-se decadente e ficou dividida em duas espécies. Os Eloi eram a casta superior, sendo de aparência infantil e eram sociais. Abaixo da superfície, em cavernas horríveis e cheias de máquinas ficavam os repugnantes Morlocks. Os Morlocks trabalhavam para atender todas as necessidades físicas dos Eloi, mas em contrapartida, a cada noite sem Lua caçavam os Eloi para comê-los como gado. Bem, para saber o resto do terror basta ler o livro, afinal de contas do ponto de vista da física ele continua atual. Sinceramente eu não acreditava na Relatividade de Einstein ou em máquinas do tempo. Mas ao ler este jornal, poucos dias atrás descobri que aparentemente já existem pré-Morlocks e pré-Elois separados por um muro na cidade universitária, que os pré-Elois dizem que os pré-Morlocks podem come-los e vice-versa. Sim, agora consigo entender. Time Machine não foi escrito há 100 anos atrás mas no ano de 802.701! O Eloi Wells deve tê-lo mandado para nós na sua tentativa de que nós do passado presente possamos alterar o futuro!

Texto de autoria de: Vítor Baranauskas é Professor Titular na Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da UNICAMP.

Aprender com todos

Perguntaram ao Rabi Mihal:

Está escrito na Ética dos Pais: “Quem é sábio? Aquele que aprende com todos os homens, como está escrito: De todos os meus mestres recebi entendimento”. E por que então não está escrito: Aquele que aprende com todos os mestres?
O Rabi Mihal explicou:
O mestre que pronunciou tais palavras pretende explicar que se deve aprender não só com aqueles que atuam como mestres, mas com todos os homens. Mesmo com o ignorante, mesmo com o perverso, te é dado alcançar o entendimento de como conduzir a tua vida.

Escolhi o texto do livro: “Histórias do Rabi” , de Martin Buber , Editora Perspectiva

Só o que é bom

Certo dia em que o jovem Zússia se encontrava na casa de seu mestre, o grande Rabi Ber, um homem se achegou a este e pediu-lhe que o ajudasse e aconselhasse num empreendimento. O Rabi Zússia, porém, percebeu que o homem estava cheio de pecado e que não o tocava um único pensamento de contribuição; assim, encheu-se de raiva contra ele e gritou: - Como pode alguém como tu, que cometeu tais e tais vilanias, ter o atrevimento de apresentar-se perante um semblante, sem a menor vergonha ou desejo de penitência! – O homem saiu em silêncio; Zússia, porém, se arrependeu de suas palavras e não sabia o que fazer. Então seu mestre o abençoou, para que, daí por diante, só visse o que há de bom nas pessoas, mesmo que alguém pecasse diante de seus olhos.
Mas como o Dom da visão que fora concedido a Zússia não lhe podia ser arrebatado por qualquer palavra humana, aconteceu que, daquela hora em diante, ele começou a sentir os pecados dos homens que encontrava como se fossem seus, e culpava-se a si próprio por eles.
Sempre que o Rabi de Rijin contava isso do Rabi Zússia, acrescentava: - E se todos nós fôssemos como ele, o mal já teria sido exterminado, a morte absorvida, e a perfeição alcançada.

Escolhi este texto do livro “Histórias do Rabi” , de Martin Buber , Editora Perspectiva.


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O pânico do último minuto e o auto-engano

Desenho: Kalvin e Hobbes por Bill Watterson.

tabacaria_calvin_autoengano.gif


TABACARIA:
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu ...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Álvaro de Campos, “Tabacaria”
(Fernando Pessoa, Obra poética, p. 365)


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