Leilões, privatizações e Teoria dos Jogos
As Regras do Jogo
Estamos acostumados com jogos em que alguém ganha e alguém perde. Todo ponto marcado pelo nosso adversário nos deixa um tanto para trás. Jogos de “ganhar-perder” parecem naturais, e muitas pessoas têm dificuldade em pensar num jogo que não seja de ganhar-perder. Em jogos de ganhar-perder, as perdas apenas equilibram os ganhos. É por isso que são chamados jogos de “soma-zero”. Não há ambigüidade sobre as intenções do adversário: dentro das regras do jogo, ele fará todo o possível para derrotar o outro…
Dentro das regras do Banco Imobiliário, não há nenhum modo de os jogadores cooperarem para quie todos se beneficiem. Não foi para isso que o jogo foi projetado. O mesmo vale para o boxe, o futebol, o hóquei, o basquete, o beisebol, o lacrosse, o tênis, o jogo da péla, o xadrez, todos os eventos olímpicos, a corrida de iate e carro, o pinochle, a amarelinha e a
política partidária. Em nenhum desses jogos, temos a oportunidade de praticar as Regras de Ouro e Prata, nem sequer a de Bronze. Há apenas espaço para as Regras de Ferro e Lata. Se veneramos a Regra de Ouro, por que ela é tão rara nos jogos que ensinamos às crianças?
Depois de 1 milhão de anos de tribos intermitentemente guerreiras, logo pensamos à maneira da soma-zero, tratando toda interação como uma competição ou um conflito. No entanto, a guerra nuclear (e muitas guerras convencionais), a depressão econômica e os ataques ao meio ambiente global são todas proposições de “perder-perder”. Interesses humanos vitais como o amor, a amizade, a paternidade e maternidade, a música e a busca do conhecimento são proposições de “ganhar-ganhar”. A nossa visão fica perigosamente estreita, se apenas conhecemos ganhar-perder.
A área científica que trata dessas questões se chama teoria do jogo, usada na tática e estratégica militares, na política comercial, na competição empresarial, na redução da poluição ambiental e nos planos de guerra militar. O jogo paradigmático é o Dilema do Prisioneiro. Está muito distante da soma-zero. Os resultados de ganhar-ganhar, ganhar-perder e perder-perder são todos possíveis.
O Dilema do Prisioneiro é um jogo muito simples. A vida real é consideravelmente mais complexa. Se meu pai dá a nossa maça ao homem dos lápis, terá mais chances de receber de volta a maça? Não do homem dos lápis; nunca mais o veremos. Mas atos difundidos de caridade podem melhorar a economia e conseguir um aumento para o meu pai? Ou damos a maçã em busca de recompensas emocionais, e não econômicas? Além disso, ao contrário dos participantes num jogo ideal do Dilema do Prisioneiro, os seres humanos e as nações começam a interagir com predisposições, tanto hereditárias como culturais.
Mas as lições centrais num rodízio não muito prolongado do Dilema do Prisioneiro são a clareza estratégica; sobre a natureza auto-destrutiva da inveja; sobre a importância das metas de longo prazo em relação às de curto prazo; sobre os perigos tanto da tirania como da ingenuidade; e especialmente sobre a possibilidade de abordar toda a questão das regras da vida diária como um assunto experimental. A teoria do jogo também sugere que um amplo conhecimento de história é uma ferramenta-chave para a sobrevivência.
TABELA DE REGRAS PROPOSTAS PARA A VIDA DIÁRIA
A Regra de Ouro Faz aos outros o que desejas que te façam.
A Regra de Prata Não faças aos outros o que não desejas que te façam.
A Regra de Bronze Faz aos outros o que te fazem.
A Regra de Ferro Faz aos outros o que quiseres, antes que te façam o mesmo.
A Regra “Tit-for-Tat” Coopera com os outros primeiro, depois faz aos outros o que te fazem.
Do livro: Bilhões e Bilhões – , página 197, Carl Sagan – Cia. das Letras
O Maior Leilão de Todos os Tempos
“Na tarde de 5 de dezembro de 1994, John Nash estava indo de táxi para o aeroporto de Newark, a caminho de Estocolmo, onde, dentro de alguns dias, receberia do rei da Suécia a medalha de ouro gravada com o retrato de Alfred Nobel. Mais ou menos na mesma hora, alguns quilômetros ao sul, no centro de Washington, D.C., o então vice-presidente Al Gore anunciava com grande pompa a abertura do “maior leilão de todos os tempos”.
Não havia, como o The New York Times noticiara depois, nenhum leiloeiro falando depressa, nem o tradicional martelo, nem Os Velhos Mestres da Pintura. O que se ia leiloar era o ar – ondas de ar que podiam ser usadas para os novos aparelhos sem fio, como telefones, pagers, fax – valendo bilhões e bilhões de dólares, licenças de exploração suficiente para que todas as grandes cidades americanas tivessem pelo menos três empresas concorrentes de serviços de telefonia celular. Nas salas de reunião secretas e também nos compartimentos dos participantes do leilão estavam os diretores executivos dos maiores conglomerados de comunicações do mundo – e um inverossímil grupo de extravagantes teóricos da economia, que os assessorava. Quando finalmente o leilão terminou, no mês de março seguinte, os lances vencedores totalizavam mais de sete bilhões de dólares, tornando aquela venda a maior na história americana de ativos públicos, e uma das mais bem-sucedidas (e lucrativas) aplicações da teoria econômica aos negócios públicos jamais feita. Mais tarde, Michael Rothschild, reitor da Woodrow Wilson School, de Priceton, chamou esse acontecimento de “uma demonstração de que quando as pessoas pensam persistentemente sobre um problema, podem tornar o mundo melhor… um triunfo do pensamento puro”.
A justaposição de Gore e Nash, do leilão de alta tecnologia e da pompa medieval da cerimônia do Nobel dificilmente foi acidental. O leilão da Federal Communications Commission foi imaginado por economistas jovens que estavam usando ferramentas criadas por John Nash, John Harsanyi e Reinhard Selten. Suas idéias foram elaboradas especificamente para analisar a rivalidade e a cooperação entre um pequeno número de jogadores racionais com misto de interesses conflitantes e interesses comuns: pessoas, governos e empresas – e até mesmo a espécie animal.
O próprio prêmio foi um reconhecimento, há muito devido, por parte da comissão do Nobel, de que ocorrera uma espantosa mudança na economia, uma mudança que já vinha se desenvolvendo havia mais de uma década. Como disciplina, a economia tinha sido, durante muito tempo, dominada pela brilhante metáfora da Mão Invisível, de Adam Smith. Smith imaginava uma competição perfeita com um número tão grande de compradores e vendedores, que nenhum comprador e nenhum vendedor teria que se preocupar com as reações do outro. Era uma idéia poderosa, que previa como as economias do livre-mercado evoluiriam, e ela deu aos responsáveis pela política uma orientação para estimular o crescimento e dividir o bolo econômico de maneira justa. Mas, no mundo de mega-fusões, governos poderosos, investimentos estrangeiro direto maciço e privatizações por atacado, em que o jogo é praticado por um punhado de jogadores, cada um atento às ações dos outros, cada um seguindo suas próprias e melhores estratégicas, a teoria dos jogos foi trazida ao primeiro plano…
O uso mais espetacular da teoria dos jogos é o que vem sendo feito pelos governos, da Austrália ao México, para vender os escassos recursos públicos a compradores com mais capacidade de desenvolvê-los. O espectro das ondas de rádio, bônus do Tesouro americano, concessões petrolíferas, madeira, direitos de poluição, tudo isso agora é vendido em leilões planejados por teóricos dos jogos – com muito mais sucesso do que as políticas anteriores.
Os teóricos de jogos trataram um leilão como um jogo com regras, e tentaram avaliar como um determinado conjunto de regras, como um todo, pode afetar o comportamento dos compradores. Levaram em consideração as opções que as regras permitiam, as vantagens associadas às opções e as expectativas dos arrematantes em relação às escolhas prováveis de seus concorrentes.
Por que esses economistas concluíram que os formatos tradicionais dos leilões não funcionariam? Principalmente porque o valor de cada licença individual para o usuário depende – como é o caso de um Rembrandt ou um Picasso – das outras licenças que ele é capaz de conseguir. Algumas licenças podem perfeitamente substituir outras. É o caso de bandas de rádio semelhantes, necessárias ao fornecimento de um determinado serviço. Mas outras licenças são complementares. É o caso de licenças para o funcionamento de serviços de pagers em diferentes regiões do país.
“Para que um processo de concessão de licenças seja eficiente, um leilão deve permitir que os candidatos a comprador levem em consideração vários pacotes de licenças, combinando complementos e trocando aquelas que forem substituíveis durante o decurso do leilão. Planejar um leilão assim é muito difícil”, escreve Paul Milgrom, um dos economistas que planejaram o leilão da Federal Communications Commission ao qual Al Gore se referia.
A segunda fonte de complexidade, diz Milgrom, é que o objetivo das licenças é criar negócios para novos serviços com tecnologia desconhecida e demandas de consumo também desconhecidas. Como as opiniões das participantes tendem a ser bastante divergentes, é possível que a concessão da licença passe a defender mais do otimismo do arrematantes do que da sua capacidade de criar um serviço desejado. De modo ideal, um projeto de leilão deve minimizar esse problema.
Enquanto o Congresso e a FCC acalentavam cada vez mais a idéia de leiloar os direitos de exploração do espectro das ondas de rádio, tanto a Austrália como a Nova Zelândia realizaram leilões desse tipo. O fato de eles terem sido fracassos dispendiosos e desastres políticos mostra que o diabo se esconde realmente nos detalhes. Na Nova Zelândia, o governo fez um leilão chamado de segundo preço, e os jornais se encheram de histórias sobre vencedores que pagaram um preço muito baixo de seus lances. Num determinado caso, o lance mais alto foi de sete milhões de dólares neozelandeses, o segundo de cinco mil, e o vencedor pagou o preço mais baixo. Em outro, um aluno da Universidade de Otago fez um lance de um dólar por um licença de televisão em uma cidade pequena. Não houve outros lances, de modo que o rapaz levou a coisa por um dólar. O governo esperava que as licenças de telefonia celular rendessem 240 milhões de dólares. O montante real foi de 36 milhões, um sétimo da estimativa. Na Austrália, um leilão mal organizado, no qual participantes arrivistas jogaram fumaça nos olhos do governo, retardou a introdução da televisão paga país por quase um ano.
A FCC contratou um outro teórico de jogos, John McMillan, da Universidade da Califórnia em San Diego, para ajudar a avaliar o efeito de cada regra proposta. Segundo Milgrom, “a teoria dos jogos teve um papel fundamental na análise das regras. Conceitos como equilíbrio de Nash, racionabilidade, indução retrospectiva e informação incompleta, embora raramente citados explicitamente, foram a base real das decisões cotidianas sobre os detalhes do processo dos leilões.”
Do livro: Uma Mente Brilhante
Da minha parte:
Pensei em compilar alguns textos sobre a “Teoria dos Jogos”, já que temos uma demanda em conhecê-la por causa do pelo filme: “Uma Mente Brilhante”, história do matemático John Forbes Nash Jr. que aos vinte e um anos, teve uma idéia intuitiva sobre a dinâmica dos jogos, aplicada a economia, política, estratégicas militares, etc. Chamou sua tese de “Políticas Governantes”, já que ficaria mais abrangente, isto em 1950. Fez contato com os mais proeminentes cientistas de sua época (Einstein). Teve esquizofrenia com 31 anos de idade que o atrapalhou a ter uma vida acadêmica e pessoal estáveis. Sua doença teve um período de “retrocesso” na década de 80, quando passou novamente a produzir textos e idéias acadêmicas e publicadas no mundo inteiro, mas sem o reconhecimento de sua total contribuição. Seu nome foi então indicado no princípio dos anos 90 para o Prêmio Nobel de Economia pela sua tese de “Políticas Governantes”, pois nunca houvera tanta aplicação prática dela for a dos meios teóricos e acadêmicos, mostrando então sua grande intuição anos antes! O Nobel lhe foi dado em 1994.
Juntei também um texto que eu fiz no ano passado, inspirado num e-mail recebido sobre pensando “simples/diferente” que também trata do assunto, leia o neste mesmo blog.
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