O pânico do último minuto e o auto-engano
Desenho: Kalvin e Hobbes por Bill Watterson.
TABACARIA:
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu ...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Álvaro de Campos, “Tabacaria”
(Fernando Pessoa, Obra poética, p. 365)
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