Os paradoxos do nosso tempo
Agradeço ao Professor Mário Zan por me enviar o texto “Os paradoxos de nosso tempo”, de um autor desconhecido, que reproduzo hoje neste espaço. O nosso encontro se deu no Colégio Dom Silvério, quando lá estive recentemente para discussão do texto “Pais que temem os filhos”, publicado neste espaço, no dia dos pais, e comentado pela psicóloga Maria Letícia Barreto, com a simpatia e competência habituais. Seja quem for seu autor, não está só. Suas idéias refletem o que sentem muitas pessoas e suas preocupações ganham eco naquelas que constituem família e desejam um mundo melhor:
“O paradoxo de nosso tempo na história é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos; auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; gastamos mais, mas temos menos; compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; temos mais graus acadêmicos, mas menos senso; mais conhecimento e menos poder de julgamento; mais proficiência, porém mais problemas; mais medicina, mas menos saúde. Bebemos demais, fumamos demais, gastamos de forma perdulária, rimos de menos, dirigimos rápido demais, nos irritamos muito facilmente, ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, raramente paramos para ler um livro, ficamos tempo demais diante da TV. Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência. Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida. Adicionamos anos às nossas vidas, mas não vida aos nossos anos. Já fomos à Lua e dela voltamos, mas temos dificuldade em atravessar a rua e nos encontrarmos com nosso vizinho. Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior. Fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma. Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos. Escrevemos mais, aprendemos menos. Planejamos mais, realizamos menos. Aprendemos a correr contra o tempo, mas não a esperar com paciência. Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral. Temos mais comida, mas menos apaziguamento. Construímos mais computadores, para armazenar mais informações, para produzir mais cópias do que nunca, e temos menos comunicação. Tivemos avanços na quantidade, não em qualidade. Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta; de homens altos e caráter baixo; lucros expressivos, mas relacionamentos rasos. Estes são tempos em que se almeja paz mundial, mas perdura a guerra nos lares; temos mais lazer, e menos diversão; maior variedade de tipos de comida, menos nutrição. São dias de duas fontes de renda, mas de mais divórcios; de residências mais belas, e lares quebrados. São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade também descartável, ficadas de uma só noite, corpos acima do peso, e pílulas que fazem de tudo: alegrar, aquietar, matar. É um tempo em que há muito na vitrine e nada no estoque; um tempo em que a tecnologia pode levar-lhe estas palavras e você pode escolher entre fazer alguma diferença, ou simplesmente apertar a tecla Del. ”
O texto veio em boa hora para nos levar à reflexão sobre nossa época, principalmente porque estamos nas vésperas das eleições, quando somos obrigados a votar e devemos, dessa forma, decidir dar continuidade ou não a tudo a que assistimos nesses últimos anos e votar pensando naquilo que desejamos para o nosso futuro. O desejo do eleitor só surge quando escolhe seu candidato e, apesar da deficiênica deste sistema em representar a singularidade de cada um, o voto ainda é a única forma de tentar representar o desejo da maioria. Devemos arcar com seus resultados, sejam eles quais forem, sabendo que a maioria de nós só conhece os candidatos através de suas imagens na TV, pouco sabendo sobre suas atividades sociais e seus princípios éticos. Ainda devemos observar que a força da liderança verticalizada encontra-se em declínio, produzindo o sentimento de que nossa sociedade vive abandonada ou nas mãos de pessoas que legislam em causa própria, pouco preocupadas com questões sociais como moradia, educação e saúde.
Os jornais ilustram muito bem tais paradoxos quando denunciam o desejos dos magistrados por auxílio moradia, enquanto tantos moram nas ruas, quando deputados e vereadores agem em conformidade com seus interesses próprios indiferentes ao bem comum. Felizmente nem todos agem assim e devemos escolher em quem votar. Por isso é tempo de refletir e pensar, pensar muito. Pois seremos nós a viver tais resultados.
Estado de Minas – setembro 2000
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