Mundos Imaginados 

Mundos Imaginados

Onkel Bruno era tio de minha mulher, um médico de família que vivia numa grande casa em uma aldeia alemã. A casa, ele herdara do pai juntamente com a clientela, e nela permaneceu por toda a vida. Durante esse tempo, a Alemanha foi governada por potentados de muitas colorações, imperiais, republicanos, nacional-socialistas e comunistas…
Sua casa, e o magnífico jardim em que ficava, eram o orgulho e a alegria de seus últimos anos.Ao admirar o grande carvalho que se erguia diante da casa, Onkel Bruno disse, em tom rotineiro: “Tenho que derrubar essa árvore; já passou do tempo”. Até onde pude perceber, a árvore aparentava boa saúde e não mostrava sinais de colapso iminente. Perguntei-lhe como tinha coragem de derrubá-la. Ele respondeu: “É por causa dos netos. Essa árvore vai sobreviver a mim, mas não a eles. Vou plantar uma árvore que eles possam aproveitar quando forem tão velhos como sou hoje”. Ele esperava que os netos herdassem o consultório e vivessem sem suas vidas naquela casa. Era assim que as coisa funcionavam no mundo que conhecia. Vivi-se para os filhos e para os netos. Os horizontes eram distantes, e era normal e natural antecipar cem anos no futuro, o tempo que um carvalho demora para crescer.
Quando eu estudava em Cambridge, Inglaterra, minha faculdade tomou uma decisão parecida. A estrada que chegava ao Trinity College, beirando o rio, atravessava uma magnífica alameda de olmos, plantada no século XVIII. Os olmos ainda eram belíssimos, mas já declinavam. Da mesma forma que Onkel Bruno, a faculdade decidiu sacrificar o presente em nome do futuro. A alameda foi derrubada e substituída por duas fileiras de mudas magricelas. Hoje, cinqüenta anos depois, as mudas atingem a maturidade. A alameda recuperou sua beleza e atingirá sua plenitude ao longo do século XXI. O Trinity College tem sido um importante centro de conhecimento desde sua fundação, no século XVI, e pretende continuar a sê-lo no século XXI…
[]…No mundo da informação, ao qual pertencem [os líderes dos setores de computadores e de software do Ocidente e do Oriente], cinco anos é um longo tempo; fortunas se fazem e se perdem em um ou dois anos. Não tem sentido elaborar planos que vão além de cinco anos, pois o crescimento da tecnologia da informação é imprevisível e o funcionamento do mercado livre ainda mais imprevisível.
[]…Parece que o mundo moderno vem se tornando crescente míope nos últimos tempos, como se o colapso das economias socialistas e as vitórias do livre-mercado tivessem tornado ilusórias as visões futuras de longo prazo.
[]…A ciência é meu território, mas a ficção científica é a paisagem de meus sonhos. No ano de 1995 transcorreu o centésimo aniversário da publicação de “A Maquina do tempo”, de H. G. Wells, taves o retrato mais sombrio do futuro humano jamais imaginado. Wells empregou uma história dramática para dar a seus contemporâneos a imagem de um futuro possível. Seu objetivo nao era prever, mas alertar. Ele estava irritado como o sistema inglês de classes, sob o qual havia sofredo pessoalmente, um sistema que dividia as pessoas emr ricos ociosos e pobres explorados, os ricos aproveitando os refinamentos da arte e da beleza enquando os pobres eram condenados a uma vida de ignorancia e feiúra. Wells avisava seus leitores, em particular seus leitores da classe alta inglesa, de que a grosseria desigualdade e injustiça de sua sociedade levava-os rumo ao desastre. Continuem nessa trilha, a história contava, e eis parq onde vão, a humanidade dividida em duas espécies, presas e predadores: os Eloi, cantando e dançando ao sol, e os Morlocks, fazendo as máquinas funcionarem no subsolo; os Eloi sem habilidades práticas e intelectuais, perdidas por causa da indolência, e os Morlocks a pastorear seus primos da superfície como gado, uma fonte conveniente de carne.
É impossível avaliar qual tenha sido a influência direta da obra de Wells sobre a história social da Inglaterra. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando trabalhava como cientista prestando assessoria técnica à Real Força Aérea, meu chefe, Reubem Smeed, formulou uma regra parq dirigir nossos esforços. A Regra de Smeed afirmava que é possível fazer coisas ou é possivel ficar com o crédito por elas, mas não ambos. Para ter eficácia em influenciar a política ou em mudar a sociedade, é preciso garantir que pessoas em posições de poder adotem nossas idéias como se fossem delas. Nunca é possível saber se nossa influência pessoal foi ou não decisiva. No caso de
Wells, sabemos que a “A Máquina do Tempo” se tornou um best-seller imediato, e que, por muitos anos, Wells foi o escritor de temas sociais mais amplamente lido na Grã-Bretanha. Wells e seus companheiros da Sociedade Fabiana pregavam incansavelmente a causa da justiça social. Sabemos que, durante os cinqüenta anos de sua vida produtiva – da publicação de “A Máquina do Tempo”, em 1985, até sua morte, em 1947 - , as desigualdades e injustiças sociais da sociedade inglesa desenvolvia uma consciência social. E sabemos que, nos cinqüenta anos transcorridos desde a sua morte, a Inglaterra reverteu gradualmente para um sistema de classes com desigualdades quase tão agudas como aquelas contra as quais ele lutara quando jovem e satirizara emseus romances. Baseado nessas evidências, julgo que, apesar da Regra de Smeed, podemos atribuir a Wells algum crédito pelas melhorias ocorridas na sociedade inglesa durante sua vida.
Wells derramou em “A Máquina do Tempo” sua angústia pessoal e seu distanciamento científico, sua compreensão impiedosa da espécie humana. Ele não foi o primeiro romancista a situar seus personagens, com suas personalidades e paixões individuais, no âmbito mais amplo da evolução biológica. Ele via a espécie humana como um experimento profundamente comprometido, fadado a fracassar devido a fraquezas internas, mesmo se não sucumbisse a calamidades externas. A história trágica do século XX não tornou a visão de Wells menos plausível. … O epílogo da “A Máquina do Tempo” vai além da violência e do cataclismo dos finais convencionais da ficção cientívica, da mesma forma que a cena final do Rei Lear supera as cenas finais repletas de cadáveres de Macbeth e de Hamlet para atingir uma quietude mais profunda. Como artista, Wells foi tão profílico e tão multiforme quanto Shakespeare. Como Shakespeare, escreveu tragédias e comédias e histórias. Difernetemente de Shakespeare, começou com tragédias e depois passou a comédias e histórias. Outras visões desagradáveis do futuro foram escritas por escritores menos talentosos do que Wells, mas nenhuma se igualou a “A Máquina do Tempo” como obra de arte.
Deste Wells, tivemos mais cem anos de ciência da qual aprender e mais cem anos de história para contemplar. Uma lição que aprendemos da ciência e da história é que o futuro é imprevisível. Apesar de sua educação científica como biólogo, Wells nunca imaginou as descobertas que, pouco depois de sua morte, dariam origem à nova ciência da biologia molecular e que dominarão a paisagem da biologia na entrada no novo milênio. Em sua “Pequena história do mundo”, Wells chamou os símbolos do nacionalismo de “deuses tribais do século XIX”, e não imaginava que tais vestígios de lealdade tribal sobreviveriam com virulência ainda mais intensa até o fim do século XX. Quando Wells tentou prever o futuro, como freqüentemente fez mais para o fim da vida, normalmente errou. Quando imaginou mundos futuros, empregando sua habilidade de romancista para alargar nossa visão e nos lembra de nossas responsabilidades, foi brilhante em seu sucesso.

Do livro: Mundos Imaginados– Freeman Dyson – Cia das Letras

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