O Método Biográfico em Ciências Sociais
A utilização do método biográfico em ciências sociais vem, necessariamente, acompanhada de uma discussão mais ampla sobre a questão da singularidade de um indivíduo versus o contexto social e histórico em que está inserido. Para Franco Ferrarotti (9) , por exemplo, cada vida pode ser vista com sendo, ao mesmo tempo, singular e universal, expressão da história pessoal e social, representativa de seu tempo, seu lugar, seu grupo, síntese da tensão entre a liberdade individual e o condicionamento dos contextos estruturais. Portanto, cada indivíduo é uma síntese individualizada e ativa de uma sociedade, uma reapropriação singular do universo social e histórico que o envolve. Se cada indivíduo singulariza em seus atos a universalidade de uma estrutura social, é possível “ler uma sociedade através de uma biografia”, conhecer o social partindo-se da especificidade irredutível de uma vida individual. Ou, como afirma Norman Denzin(10) , inspirado em Sartre, o homem “é um singular universal”.
Aspásia Camargo, ao defender a utilização do “método biográfico” para estudar a elite política brasileira, lembra que os ganhos iniciais dos estudos de História de Vida podem ser identificados em pesquisas sobre o comportamento desviante desenvolvidas pela Escola de Chicago. A autora, ao adotar a abordagem de história de Vida, concentrou-se em estudar o que chamou de winner circle, um pequeno número de pessoas que formulam e implementam políticas estratégicas. Para ela, reconstituir suas Histórias de Vida é o melhor caminho para conhecer estes indivíduos que tomam decisões estratégicas, suas origens, seus instrumentos para controlar e manter o poder; seus valores e interesses. Uma das dificuldades desta abordagem, apontada pela autora, é que se limita àquelas pessoas que “querem falar”. Para muitos membros da elite, o silêncio e a discrição são a regra pois “quanto mais destacados e politicamente ativos forem os atores, mais conscientes são também do risco de conceder informações ‘verdadeiras’ sobre seu próprio desempenho ou de seus pares”(11). A autora aponta como seus melhores informantes os políticos aposentados, os excluídos, os exilados, os perdedores: aqueles que, ao contrário de temer o interesse do pesquisador, procuram denunciar injustiças, traições, corrupção e os interesses do grupo.
...[]Um estudo exemplar para discutir a relação indivíduo e sociedade a partir de uma análise de biografia é o de Nobert Elias, Mozart: sociologia de uma gênio(14). Esta análise é uma importante referência teórica para compreender o que um determinada trajetória diz sobre o momento histórico, cultural e político em que ocorreu, sobre comportamentos e valores que reflete ou antecipa e as condições sociais existentes para o aparecimento de um artista singular.
Nobert Elias estuda não apenas Mozart, mas a posição que o compositor ocupou na sociedade de sua época, as determinações que pesaram sobre seu destino pessoal e os constrangimentos que sofreu no exercício de sua criação. O autor pensa a liberdade de cada indivíduo inscrita numa cadeia de interdependências que o liga aos outros homens, limitando o que é possível decidir ou fazer. Elias busca compreender como o homem que se tornou o “símbolo do maior prazer musical que o mundo conhece” encontrou um morte prematura. Analisa os dois elementos que considera fundamentais para explicar o curso trágico da vida de Mozart: a relação com o pai e os conflitos com a aristocracia de corte.
Elias revela que as razões pelas quais Mozart se sentiu um fracasso só podem ser entendidas considerando-se o conflito existente na Áustria, e em quase toda a Europa da segunda metade do século XVIII, entre os padrões de uma classe mais antiga, a aristocracia de corte, e os de outra, a burguesia em ascensão. Na geração de Mozart, um compositor que quisesse ter sua música reconhecida e garantir a subsistência dependia de um cargo numa corte. Elias lembra que os músicos eram tão indispensáveis nos palácios dos príncipes quanto pasteleiros, cozinheiros e criados: tinham o mesmo status na hierarquia da corte.
Ao apresentar o modelo das estruturas sociais em que vivia um músico no século XVIII – e a posição dominante dos padrões cortesãos de comportamento, sentimento, gosto música e vestuário -, Elias demonstra o que Mozart era capaz de fazer como indivíduo, e o que não era capaz de fazer, apesar de sua grande singularidade. Mozart viveu o drama de uma artista burguês na sociedade de corte: a identificação com o gosto cortesão e a vontade de ter sua música reconhecida pela nobreza; e o ressentimento pela humilhação de ser tratado como serviçal pelos aristocratas da corte. Ao contrário do pai, nunca aceitou esta posição e, consciente do valor de sua música, queria ser reconhecido como igual (ou superior) por quem o tratava como inferior.
Nobert Elias chama a atenção para a curiosa contradição dos desejos dos outsiders: a tentativa de romper com o establishment e, ao mesmo tempo, a luta pelo reconhecimento e aceitação deste establishment. Para ser músico da corte, além de qualificações musicais, era necessário assimilar o padrão de comportamento cortesão. Mas Mozart não tinha as habilidades necessárias para conquistar os nobres: odiava bajulações, era franco, direto e até rude com as pessoas de quem dependia. Com pouco mais de 20 anos, desistiu de seu posto relativamente seguro de regente da orquestra e organista da corte de Salzburgo e foi ganhar a vida como artista autônomo, dando aulas de música e concertos para o público vienense, vendendo seu talento e suas obras em um mercado incipiente, predominantemente de aristocratas da corte.
Elias mostra que o conceito de gênio é aplicado a Mozart com os olhos do presente, já que esta noção surgiu muito depois de sua morte, com o romantismo, Na sua época, era muito difícil se estabelecer como artista autônomo e conseguir “dar rédea livre às sua fantasias”, como Mozart desejava. Elias, analisando a mudança na posição social do artista – do patronato ao mercado livre -, lembra que Beethoven, nascido em 1770, quase 15 anos depois de Mozart, conseguiu com muito menos problemas libertar-se de dependência do patronato da corte, impor seu gosto a um público pagante e alcançar sucesso com a venda de suas composições para os editores. Mozart antecipou atitudes e sentimentos de um tipo posterior de artista: o artista livre, que confia acima de tudo em seu talento, numa época em que a estrutura social não oferecia tal lugar para os músicos. Mozart nasceu numa sociedade que não permitia a existência de um artista individualizado e independente, “foi um gênio antes da época dos gênios”.
(9) Franco Ferrarotti. Histoire et Histoires de Vie: le méthode biographique
(10) Norman K. Denzin. “Interpretando as vidas das pessoas comuns: Sartre, Heidegger e Faulkner” em Dados-Revista de Ciências Sociais, R.J., vol. 27, no 1, 1984, p. 30
(11) Aspásia Camargo. “Os usos da História Oral e da História de Vida: Trabalhando com elites políticas” em Dados-Revista de Ciências Sociais, R.J., vol. 27, no 1, 1984, p. 14.
(14) Nobert Elias. Mozart: sociologia de um gênio. R.J., Zahar, 1994
Do livro: A arte de pesquisar – como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais, R.J. , páginas 36-38 – Mirian Goldenberg – Editora Record , 1997
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