Mudança e Resistência à Mudança
Comecei a trabalhar bem cedo para padrões urbanos no Brasil, 15 anos. Que para padrões da zona rural no mesmo período podemos dizer que foi tarde, acredito que ainda é assim até hoje, em pleno século XXI. Comecei como contínuo no Banco Real, antigo Banco da Lavoura de Minas Gerais, com sede aqui em Belo Horizonte, fundado por Clemente Faria. Trabalhei no Banco Real por 2 anos e alguns mêses. Uma vez fui levar as contas de energia elétrica recebidas pelo banco para a empresa de energia, e vi um anúncio de concurso. Era o Concurso do SENAI, para jovens de até 17 anos incompletos. Na inscrição dizia que era para “leiturista, eletricista de distribuição, e operador de usina.” Durante o período que compreendeu deste a minha inscrição no concurso, o recebimento da carta indicando a classificação (carta esta que guardo até hoje), e os exames médicos em Sete Lagoas, eu já havia sido promovido para escriturário no banco. Lembro-me que quanhava 6 vêzes mais que o ganharia como aprendiz do SENAI, mas como sempre foi meu sonho trabalhar numa empresa de energia elétrica, não tive dúvidas sobre a opção que iria fazer. Somente a dúvida: Distribuição ou Geração? Quando pedi demissão, em janeiro de 1982, tive 20 dias para tirar férias e pensar a respeito. Viajei para Cabo Frio, e na década de 80, Cabo Frio era Minas Gerais. Quando estava em uma praia de Búzios, conheci um futuro colega , e ele me indicou a distribuição como melhor opção para as minhas intensões naquela época. Algo que ele me disse me chamou a atenção para a minha escolha: se fizesse o curso de eletricista, o que seria a distribuição, iria garantir pelo menos uma profissão de eletricista fora da empresa, mais comum que um operador de usina, já que naquela época, somente esta estatal possuía usinas, pela lei de monopólio. Esta pessoa, que não me lembro mais quem é, já me dizia em 1982: a empresa está mudando...
Naquela época, ser empregado da estatal, já não era lá tão bom quanto foi anos antes, mas todas as mães e pais, sonhavam que seus filhos trabalhassem em alguma estatal qualquer ou na decadente carreira militar. Trabalhar para qualquer uma dessas empresas estatais era a garantia de uma aponsetadoria tranqüila... Esta questão, ainda não me vinha a cabeça pois sendo jovem, isto não é um valor a se dar valor, pessoalmente escolhi entrar porque gostava do serviço que iria fazer, sempre gostei de engenhocas, aventura era meu sobrenome. E isto tudo eu tive no período que fui eletricista. Trabalhei em muitas cidades, conheci muitas pessoas, tanto dentro como fora da empresa. A experiência de ligar uma residência na zona rural ou as primeiras casas de um novo bairro é sempre única. Isto deve ser mais especial em Minas Gerais, por este interior imenso. Um estado que é maior que a França.
Vim de uma família de servidores federais públicos, para mim o trato do bem público sempre foi uma questão de honra, que aprendi desde pequeno, pois sempre morei em prédios públicos, sendo a casa ou apartamento, pertenciam a União. Meu pai é a pessoa mais proxima da defesa e da prática de uma ética pública que conheci, e aprendi tanto como me comportar com o dinheiro público e de como comportar-me com o relacionamento com as pessoas com que eu deveria servir. Estou dizendo isto porque quando era eletricista e fazia as ligações de novos consumidores na zona rural ou em novos bairros, as pessoas viam o carro da empresa e literalmente nos recebiam como se fóssemos o doutor da família.
As escadas eram colocadas no poste, outra no “padrão”, passávamos os fios entre os dois pontos, ligávamos o medidor de energia, chamado pelos moradores de “relógio”. Quando tudo estava pronto, ligávamos a chave e pedíamos ao morador para ligar algo em sua casa para “testar” o nosso trabalho. Quando o morador via luz da sala acesa, alegremente ele já nos convidava para aquele “cafezinho com queijo”. Mas aí vinha a dúvida! Estávamos ou não sendo anti-éticos? Deveriamos recusar? Sendo empregados da empresa deverímos cuidar da imagem da nossa empresa, pois ali a estávamos representando. Qual das decisões traria melhor benefício da imagem da empresa junto ao consumidor? O aceite, poderia representar tirar alimento de quem já não tinha nada? E o não aceitar representaria um desrespeito a hospitalidade mineira? E como conseqüência uma vizão não humana da relação empresa x cliente?
Hoje escrevo este texto, e com 23 anos após ter entrado na empresa, continuo a ouvir que a mesma está mudando...
Quando me formei no segundo curso de nível médio, o de técnico de eletrônica, o projeto que deveria apresentar junto a diretória da escola (COTEOM – Divinópolis), era relativo a tecnologia que havia aprendido na escola integrado com uma grande necessidade da minha empresa, pelo menos eu achava. Fiz um testator de continuídade eletrônico. Este era transistorizado e tinha uma alta sensibilidade ôhmica. Desta forma ele identificava o condutor que estava aterrado, por meio de um “LED” aceso e uma pequena cigarra que fazia um barulho. Tanto o sinal luminoso e o barulho eram diretamente proporcionais as condições de aterramento, por exemplo: aterramento bom sinais altos, aterramento ruim ou inexistente, nenhum dos sinais ou baixos.
Fiz um relatório próprio para a escola. Os professores gostaram muito, e recebi meu diploma de técnico de eletrônica por causa do meu projeto (algo prático deveria ser entregue). Quando pedi para que um dos engenheiros que trabalhavam na empresa de minha cidade me fizesse um relatório sobre o mesmo, nada recebi documentado. Parecia que aquele testator de continuidade, que para meus professores era de extrema simplicidade técnica, e que para mim também era, era para o engenheiro uma tese do tipo: “absorvição de energia por corpos compactos”.
Em resumo: nunca tive o famoso “feed-back” da empresa como empregado e criador. Pensei comigo: como poderei escrever sobre um trabalho que eu mesmo fiz? Não estaria eu caindo de algum modo em um pensamento seletivo? Conterá apenas as visões boas do próprio inventor? ...
No início de 1987, vim para Belo Horizonte. Fiz entrevista com um engenheiro novo, e que já tinha o título da época de “Chefe de Divisão”. O local era o Anel Rodoviário, e o cargo pretendido era o de eletricista. Esperei por ele na sua sala. Quando chegou vi que realmente ele era novo, e num momento de desenvoltura inexplicável de minha parte, disse-lhe: “Poxa, você é realmente novo mesmo, esperava encontrar um engenheiro mais velho”. Devo ter amaciado seu ego, pois, ele me pediu minhas qualifiações e me orientou a procurar outra pessoa que precisava de um perfil igual ao meu. Com isto foi trabalhar como atendente do telefone, do plantão da rede elétrica da capital mineira. Ficava na rua Itambé, 114, oitavo andar. Na sala havia 18 mêsas, com um telefone comum em cima e um bloco de anotações chamado de “RC” (Reclamações de Consumidores). Nele de modo “mágico” anotávamos os endereços onde faltava energia, que por sua vez, anotávamos em folhas de A3 colocadas num quadripé que prendia as folhas com anotações, e as folhas em branco no fundo. Quando tínhamos uma chuva forte, esta maneira de identificar os locais de ocorrência, seria engraçado se não fosse numa situação de desespero para quem ligava. Escrivíamos em tantas folhas A3, que elas tinham que serem fixadas nas paredes desta sala, que as vezes era totalmente tomada por folhas com os nomes dos bairros e os endereços dos consumidores sem energia. Isto era feito para que nós atendentes não tirássemos uma outra reclamação, ou “RC” para uma mesma rua, bairro ou endereço. Nos dias chamados “atípicos”, as folhas eram tantas que tínhanhos de subir nas mêsas para que fossem pregadas numa altura maior, pois em alturas medianas já estavam todas tomadas pelas mesmas... Isto não é uma piada! É a mais pura verdade! Eu presenciei isto!
Com o desenvolvimento da informática isto veio a acabar, graças a Deus, e pelo bem dos atendentes e dos clientes. Hoje tudo é informatizado num sistema criado pelos próprios analistas da empresa. Este foi tecido com a bagagem de todos os que já passaram pelo atendimento, triagem, rádio operador, encarregados, eletricistas, engenheiros, analistas, e os que lideram a todas estas pessoas (superintendentes, assistentes), etc... Do início de meu trabalho em 1987 ao final dele, quando saí de lá, em 2002, muitas coisas mudaram na empresa.
Foi criada a “Declaração de Princípios Éticos e Código de Conduta Profissional”, a empresa está se desverticalizando. Também a declaração explícita da necessidade de lucros para nossos acionistas assim como a necessidade de se ter uma política de responsabilidade social atrelada. E também a idéia de se criar uma política de “meritocracia”.
Trabalho na área de desenvolvimento de sistemas atualmente, sou um programador de sistemas. Já passei da idade de ser alguma coisa, no contexto atual de "empreendorismo", mas também não estou no fim de carreira e nem com o “pé na cova” como diriam os nossos pais. Gosto do que faço. Tirando a parte ruim minha, sou bom como todos aqui (assim como todo ser humano), não somos perfeitos. Tenho conciência de que um problema para mim pode parecer simples, mas para quem ocupa uma superintendência ou diretoria, este pode não se tornar tão simples qualquer decisão, pois temos visões diferentes da empresa, e temos responsabilidades diferentes. Faço aqui minha “mea culpa”, pois já foi incoveniente por mandar e-mail para quem não devia. Mas o fato é que já fiz e não tem como voltar atrás. Mas deve ser minha virtude, a persistência, uma das duas que tenho, a outra é a capacidade de lembrar as coisas que já li. Digo isto não por arrogância esnobe, mas por acreditar que não tenho muitas outras qualidades, por isso faço questão de falar das duas. Meus defeitos vocês já conhecem muito bem, não é preciso que lhes diga.
Por que comecei o texto com meu início na empresa? Pois tenho certeza que quando aquela pessoa me falou que a empresa estava mudando há 23 anos atraz, certamente todos nós hoje, mais do que nunca sabemos que a mudança deve ser constante e parafraseando alguém, “a mudança não é um lugar que se chega, mas uma viagem permanente”. Quando envio e-mails para alquém, dentro da empresa, espero um retorno, positivo ou negativo do assundo. Não estou queixando de falta de oportudinidade para aprender, pelo contrário, aprendo sempre com os cursos que minha empresa me proporciona e dos livros que leio em casa, de história natural, de biologia, de história, de ética, de religião, de psicologia, e por fim os de INFORMÁTICA que leio. Sou uma pessoa de muita intuição. Aprendo mais com a prática do dia a dia, do que se tentarem me passar conceitos numa sala de aula sobre qualquer assunto. Muitos me tomam como tolo.
Farei aqui a pergunta que não quer calar dentro de minha mente: ainda tenho oportunidade? Sou uma pessoa apática? Devo ficar quieto “na minha” fazendo simplesmente o que me mandam? Ou devo me interagir mais dentro dos limites de meio?
A pergunda se faz concreta dentro de mim por que quanto mais eu aprendo, mais vejo as necessidade de mudança de conceitos. E não digo que os nossos supervisores gostam porque gostam de um certa estabilidade (“status quo”), ela é boa para manter o controle das coisas e responder de imediado uma pergunda vinda de um superior hierárquico. Mas até que isto contrapõe a “meritocracia” no sentido de que se eu cumprir o que me pedem, e o que me pedem vem de uma situação de “não traga mais dúvidas”, ou seja, não alterar formas de trabalhar para que se tenhamos uma ilusão de “produtividade”. Será isto correto? Será que a meritocracia virá de um desenvolvimento individual exacerbado em contraposição de um crescimento do grupo?
Por exemplo, se tiver uma idéia original? Oque fazer com ela? A pessoa que não tem um curso superior então não precisaria ser criativa, pois não vai alterar sua posição, que significa, alteração no valor no pagamento mensal? Quem não se envolve com estas idéias é porque está atarefado? Está pensando somente na meta do mês? Da semana? Do Dia? Existirá um fórum para tornar pública as várias formas de resolução de problemas? A empresa tem interesse em ter um banco de idéias? (de problemas já resolvidos, suas formas de resolver). Isto não pruducente? Afeta a segurança da informação? Está na contramão da idéia de meritocracia?
Para finalizar a última pergunta: a meritocracia leva a aristocracia? A sençação do serviço bem feito só é paupável num ofício mais artesanal, como os eletricistas? Pois eles (eletricistas) lidam com menos problemas éticos, e a questão é somente de quantidade a ser feita? Estamos mudando lentamente ou numa velocidade elevada? Temos resistência da mudança na própria gerência?
Frases para a ocasião:
Devemos dizer ao povo o que ele precisa saber e não o que ele gostaria de ouvir. (J. F. Kennedy).
O consenso é a negação da liderança. (M. Thatcher)
A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem as duas.(Milton Friedman).
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