A teoria oficial 

A teoria oficial

Hoje em dia não se tem respeito pela filosofia. Muitos cientistas usam o termo como sinônimo de especulação estéril. Quando meu colega Ned Block contou ao pai que se especializaria nessa matéria, a respostao do pai foi “Luft!” – palavra iídiche que significa “ar” e também desina um sonhador sem senso prático. E existe a piada do rapaz que disse à mãe que seria doutor em filosofia, e ela replicou: “Esplêndido! Mas que tipo de doença é filosofia?”.
Mas longe de serem estéreis ou sonhadoras, as idéias dos filósofos podem ter repercusos durante séculos. A tábula raza e suas doutrinas acompanhantes infiltran-se na sabedoria convencional de nossa civilização e afloramram repetidamente em lugares inesperados. William Godwin (l756-1835), um dos fundadores da filosofia política liberal, escreveu que “as crianças são uma espécie de matéria-prima posta em nossas mãos, e suas mentes, como uma folha de papel em branco”. Em tom mais sinistro. Mao Tsé-Tung justificou sua radical engenharia social dizendo: “É numa página em branco que se escrevem os mais belos poemas”. Até Walt Disney inspirou-se na metáfora e escreveu: “Imagino a mente de uma criança como um livro em branco. Durante seus primeiros anos de vida, muito será escrito nessas páginas. A qualidade desses escritos afetará profundamente sua vida”.
Tomaz Locke não poderia ter imaginado que suas palavras um dia levariam ao Bambi (Disney queria ensinar autoconfiança); Rousseau não poderia ter antevisto Pocahontas, o mais rematado exemplo do bom selvagem. A alma de Rousseau parece ter sido canalizada pelo autor de um artigo recentemente publicado na página de Opiniões do Boston Globe no Dia de Ação de Graças:

Eu diria que o mundo que os nativos americanos conheciam era mais estável, mais feliz e menos bárbaro que nossa sociedade atual. [...] não havia problemas de emprego, a harmonia na comunidade era grande, não existia abuso de substâncias tóxicas, o crime quase ixesistia. A guerra que havia era em grande media ritualista e raramente resultava em matança em massa e indiscriminada. Embora ocorreses tempos difíceis, a vida, o mais das vezes era estável e previsível. [...] Pois os nativos respeitavam o que os circundava, não havia perda de água ou recursos alimentícios decorrente de poluíção ou de extinção, nem escasses de matéria prima para os artigos básicos da vida, como cestas, canoas, abrigo ou fogo.

Não que não existam céticos:


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Calvin and Hobbes © Watterson.
Preproduzido sob permissão de Universal Press Syndicate. Todos os direitos reservados.

Também a terceira doutrina continua a marcar presença nos tempos modernos. Em 2001 George W. Bush ananciou que o governo americano não financiaria pesquisas sobre células-tronco humanas se os cienteistas tivessse de destruir novos empriões para obtê-las (a política permitia pesquisas baseadas em linhagens de células-tronco previamente extraídas de embriões). Essa política ele derivou de consultas não só com cientistas mas também com filósofos e pensadores religiosos. Muitos deles alicerçaram o problema moral no “recebimento da alma”, o momento em que o agrupamento de células que se desenvolverá até tornar-se uma criança é dotato de alma. Alguns afirmaram que esse momento ocorre na concepção, o que implica que o blastocisto ( a bola de células de cinco dias de existência da qual são retiradas as células-tronco) é moral-mente equivalente a uma pessoa, e que destruí-lo é uma forma de assassinato.
Esse argumento revelou-se decisivo, o que significa que a política americana sobre a talvez mais promissora tecnologia médica do século XXI foi decidida ponderando-se a questão moral como ela poderia ter sido proposta séculos atrás: quando o fantasma entra na máquina?
Esas são apenas algumas das impressões digitais que a tábula rasa, o bom selvagem e o fantasma na máquina deixaram na vida intelectual moderna. Nos próximos capítulos veremos como as idéias aparentemente elevadas dos filósofos do Iluminismo arraigaram-se na consciência moderna e como descobertas recentes estão lançando dúvidas sobre essas idéias.


Texto compilado do livro: A Tábula Raza, a negação conteporânea da natureza humana
De Steven Pinkerm, 2004, São Paulo – SP - Cia das Letras.

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