O Brasil de 1950-2005, e o Aprender 

O Brasil de 1950-2005, e o Aprender

Recordo-me quando estava matriculado em uma turma de elétrica noite, na matéria de Centrais Elétricas. O professor era funcionário da Universidade Federal de Minas Gerais, trabalhava no primeiro reator nuclear da América Latina. Ele mesmo escreveu sua apostila, com as anotações de sala dos anos anteriores. E com a ajuda de ex-alunos, criaram todos os desenhos e diagramas da apostila. Uma vez levou a turma inteira da sala de aula, para um fim de semana na usina de Agra dos Reis, Rio de Janeiro. Visitamos a usina por dentro, graças as suas credenciais junto ao governo brasileiro. Gostava de contar suas viagens pelo mundo, usando o “passaport vermelho”, passaport dado somente para embaixadores e representantes de países nas Nações Unidas. Ele representava o Brasil em algumas reuniões sobre o uso da energia atômica. Uma estória que sempre contava a toda a turma, foi quando ele viajou para o Havaii, e por uma falha no sistema de geração de uma das cidades, um dos porta-aviões atômicos estacionados na baia, foi usado como gerador para a cidade inteira, até que se consertasse o gerador da cidade. Dizia-nos sempre sobre o uso da energia nuclear para matar as bactérias das frutas e legumes, logicamente seria uma exposição de baixa potência e que não afetaria a saúde humana. Dizia ele que se adotássemos este procedimento a durabilidade dos alimentos seria aumentada. Tinha minhas dúvidas em relação ao custo benéficio deste frente a outras abordagens mais simples, por exemplo: a educação da mão de obra de todo o processo de manuseio, transporte e armazenamento dos alimentos. Gostava do jeito que ele lidava com os alunos. Mantinha-os sempre atentos de várias maneiras peculiares. Uma delas era o método do giz. Que consistia em jogar uma pedra de giz em quem estivesse conversando, ou fazer uma pergunta valendo pontos sobre um assunto tratado para quem estivesse conversando. Era fatal. A conversa sempre terminava.
Essa turma que eu estava, fazia pelo menos 2 matérias nela. Conhecia-a muito bem. Eram pessoas unidas por ideal comum: “pegar o canudo”. Mesmo se durante a prova tivesse que trocar informações entre eles, por exemplo: uma turma fazia 1/3 das questões, outras 2 os outros 2/3. E no final as provas e os papéis eram trocados entre eles. Outra abordagem utilizada era pegar a prova da turma da manhã ou da tarde. Não sei como, mas isto dava resultado, pois me lembro de várias pessoas tirando 25, a nota máxima, e dizendo que tinha aparecido uma prova com as respostas. Logicamente poucos ficavam sabendo disto, e no meu caso, fiquei sabendo pois perguntei para um amigo meu chamado Sérgio, de Divinópolis. Eu o conhecia a vários anos antes da faculdade. Esta turma era a responsável por ter conseguido fazer com que um aluno pedisse para sair da PUC/MG, de tanto que eles “pegaram” no pé dele. E eles contavam isto com o maior orgulho para qualquer um que os incomodasse. Somente fiquei sabendo disto quando Eu fui tomado como “cristo” da turma, pois fazia perguntas ao professor desta matéria, Centrais Elétricas.
Me lembro um dia em que um destes alunos da turma estava conversando, e o professor se dirigiu a ele já mencionando quantos pontos seriam se ele respondesse a pergunta que iria fazer a ele. Estávamos no assunto de Centrais Nucleares, e eu sabia que dominava bem o assunto, pois passei anos lendo sobre isto nas minhas revistas Ciência Hoje. O professor fez a seguinte pergunta para o aluno: “Se a água que circulava no reator era radioativa ou não?”. O aluno que estava conversando ficou em silêncio e nada respondia. Os minutos se passavam e nada, os minutos pareciam horas. Por fim, interpelei o professor pedindo para responder. O professor ainda deu mais um tempo para o aluno, que estava em silêncio e muito constrangido por sinal. Por fim o professor me dirigiu a palavra a pediu que respondesse a pergunta. Só que já havia notado a sutileza da pergunta e pedi que a repetisse novamente. As pessoas da sala me olharam com um ar de reprovação e fizeram um côro típico da turma, algo parecido como “Quém Quém Quém Quém Quém Quém....”. O professor pediu silêncio da turma e antes de repetir a pergunta novamente, disse a turma, que a minha dúvida tinha fundamento. Ele repetiu a pergunta: “Se a água que circulava no reator era radioativa ou não?” . Respondi-lhe já com outra pergunta: “A água está no circuito primário ou secundário?”. Novamente a turma deu aquele côro! Mas novamente o professou anunciou, que a minha pergunta tinha fundamento, e que isto já quase respondia a questão. Eu sabia se a água estivesse no circuito primário, o que faltou esclarecer na pergunta, a mesma era radioativa, mas se fosse no circuito secundário, a água não seria radioativa. O professor manifestou que a resposta e minhas dúvidas sobre a pergunta tinham sido procedentes e estavam corretas, pois tinha feito uma pergunta para uma resposta desta natureza.
A partir deste dia, sempre levantei a mão para responder a qualquer pergunta que ele fazia na sala de aula, mas ele nunca me deixou responder e também nunca me chamou para responder qualquer questão que fosse. E a turma também deixou de me importunar, graças ao ocorrido neste dia! Mas esta turma só tinha algo mais acentuado que as outras que passei pela PUC/MG, era mais cruel com os alunos que não estavam com eles no perído normal. Ontem lia um trecho da passagem do professor Richard Feynman pelo Brasil (Rio de Janeiro), nos anos 50. Veja a descrição dele:


“...tive uma experiência muito interessante. Eus estava dando aulas para um grupo de estudantes que se tornariam professsores, uma ves que àquela época não haviamutias oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já´tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso mais avançado em eletricieade e magnetismo, equações de Maxwell, e assim por diante. Descorbri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Ma quando eu fizesse a pergunta de novo, o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu conseguia [em português escasso] eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo uma vez estava falando sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaróide.
...[]Mas, então, perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaróide.
Eles não faziam a menor idéia. Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá fora”. Ninguém disse nada. Então eu disse: “Vocês njá ouviram falar do Ângulo de Brewster?” Sim, Senhor! O ângulo de Brewster é...
Depois de muita investigação, finalmente descobre que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queriam dizer [sobre sua primeira pergunta].
Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: ... Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra....[] Eu não coseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se coloca muito peso do lado de fora [perto da maçaneta], em comparação quando você coloca perto da dobradiça, nada!
Depois da palestra, falie com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações o que vão fazer com elas?” Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova. E como vai ser a prova? Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Qauando dois corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são equivalentes quando...”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado. Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi fantástico: ele respondeu tudo certinho!...[]
Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?” Não.[...]
Dei um curso na faculdade de engenharia sobre mnétodos matemáticos na física, no qual tentei demonstra como resolvero os problemas por tentativa e erro. È algo que as pessoas geralmente não aprendem; então começei a dar aguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa.[] Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra [sic], depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”. Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz um pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que les está desperdiçando o tempo dos outros. Expliquei a utilidade de trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!...”

Do Livro, “O Melhor de Ricard Feynmam”, Ciência Aberta, Ano de Edição: 1994, ISBN: 972-662-377-9


Conclusão:

É esta geração formada na década de Feyman que hoje ainda dirige nosso país. Gente que nunca pegou para fazer. E infelizmente junto com eles existem a turma da escola que foi ou ainda é cúmplice deles, e serão os assessores dos que tomam decisão hoje por 170 milhões de pessoas. Como no exemplo da ministra da economia Zélia Cardoso de Melo, durante o confisco do dinheiro das contas correntes e poupança: “ela pensou num número e lembrou na nota de cinqüenta, e definiu: o limite vai ser de Cr$50,00”. Indagaram para ela sobre o povo, pois o valor era muito baixo: “O povo, isto é só um detalhe!”. Vamos ver essa geração 2000, de MBA e de administradores que estão hoje tomando conta do Brasil.
Rezo por todos nós...

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