A Fala 

A Fala

...A memória do mundo foi entulhada de nomes de generais em vez de conversadores, talvez porque, no passado, as pessoas falassem bem menos do que hoje. “Um homem muito dado a falar, por mais sábio que seja, é incluído no rol dos tolos”, disse o príncipe persa Kai Kau’us de Gurgan, e o mundo concordou, a julgar pela maior parte da sua história... A província de Hame, na Finlândia, é de todas as mais silenciosa: ali os habitantes se orgulham da história do fazendeiro que visita o vizinho e senta-se calmamente por logo período, sem dizer uma palavra, antes que seu anfitrião lhe pergunte a que veio. Afinal, ele se força a revelar que sua casa pegou fogo... Os antropólogos registram a existência de lugares na África Central onde as pessoas “não se julgam na obrigação de conversar numa situação social, porque a fala, e não o silêncio, é que cria dificuldades”. Outros antropólogos analisaram o quanto é importante, em Madagascar, ser cuidadoso com o que se diz, porque a informação é um produto raro, que deve ser acumulado, já que concede prestígio, e porque fazer um pronunciamento que resulte falho causará grande perda de prestígio. Mas isso não é privilégio exclusivo de qualquer parte do mundo, é característica de muitas profissões e de muitas situações formais em qualquer outro lugar: há muitas razões para não se falar, acima de tudo o receio de passar por tolo. ... O que é instrutivo acerca de Madagascar é que os homens estão tão preocupados em perder prestígio ou em ofender outros homens, que deixam todo o discurso às mulheres. Quando desejam criticar, pedem às mulheres que o façam por eles....
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...Han Fei Tzu conheceu este problema no século II a.C. Não conseguia fazer com que o ouvissem. Era sempre mal interpretado; se tentasse ser espirituoso, acusavam-no de frívolo; se emitisse queixas, parecia falso; se falasse fora de hora, era punido; diferentes pessoas consideravam-no alternadamente inepto, presunçoso, arrogante, covarde e bajulador. Era de admirar, indagou, que ele fosse desconfiado acerca de se expressar e preocupado quando o fazia? E, no entanto, ele gostava de conversar e de dar sua opinião, o que, eventualmente, valeu-lhe uma sentença de morte. Han Fei deixou um livro de ensaios acerca da “Indignação Solitária” e das “Dificuldades no Caminho da Persuasão”, nos quais demonstra que sabia o que devia Ter feito, mas não pôde fazê-lo: o obstáculo à conversação consistia em “não conhecer o coração” da pessoa com quem se falava, “para assim adequar meu modo de falar a ele”. Ele concluiu que o problema era que os seres humanos são um mistério.
E por isso, naturalmente, se tornam interessantes e vale a pena tentar falar-lhes. Se fossem previsíveis, não haveria razão maior para a conversa, que retira sua inspiração exatamente das diferenças entre os seres humanos.
...Os inimigos da conversa são a retórica, a competição, o jargão e as linguagens particulares, ou o desespero de não ser ouvido e de não ser compreendido... Somente quando aprendem a conversar as pessoas começam a ser iguais

* Pag. 37 - Uma História Íntima da Humanidade – Theodore Zeldin – Editora Record - 4a reimpressão – 1999.


“Em resumo, o tolo entra num processo de parceria com quem possui um leitura parcial (aparente) da realidade e produz resultados – o que pareceria ser resposta dada à sua eficácia. O tolo ouve do mundo oculto sua razões e, ao expô-las, o meio-sábio vê respostas do aparente. O tolo é um instrumento; nossa tolice e ingenuidade são instrumentos para romper barreiras do impossível. Diz o ditado iídiche: “Quando a tarefa é volumosa e árdua, quando se tem muito o que fazer, vá dormir!”. Guei sch’lufen – “vá dormir” – é um artifício para evocar uma dimensão menos comprometida com as cansadas e desgastadas formas de pensar. Fazendo emergir o ingênuo de cada um de nós, este artifício abre possibilidade para compreender os meios, os ambientes, desde onde é possível desmascarar os círculos viciosos nos quais nossos pensamentos e decisões que buscam ser “espertos” e “sagazes” tornam-se presas fáceis. **

** Página 131 – O segredo Judaico de Resolução de Problemas – 9 a Edição – Nilton Bonder


Meu comentário

Textos extraídos e compilados por mim dos livros que já li, por achar certa semelhança na minha personalidade, pois gosto de tentar me entender na confusão ou caos que nos encontramos no século XXI.

Na primeira e segunda partes, o texto me fez lembrar quando um dos projetos iniciados por uma determinada empresa, não deu certo. Daí pediram para um subordinado explicar para os trabalhadores braçais que apesar de todo o esforço da equipe, teriam que abandonar o projeto (meio autofágico por natureza).

Na terceira parte, o texto me faz lembrar quando fui trabalhar em um determinado projeto. Na maioria das vezes me considero um tolo, sem falsa modéstia, mas como geralmente não estou comprometido com as aparências, consigo resolver problemas que para outros era considerado um “calo”, também não tenho medo de perder prestígio, pois nunca o tive! (primeira e segunda parte do texto).

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