Para os meus avós - Isolina e Álvaro
Nasci em Caxambu, cidade do sul de Minas Gerais, mas saí de lá aos 6 anos, para morarmos em São Sebastião do Paraíso (MG), pois meu pai trabalhava nos Correios, e sempre estava de mudança. Apesar de ter conhecido muita gente nestas mudanças, nunca tive amizades duradouras no tempo, apesar de ter conhecido muitos e estas amizades se enraizarem profundamente.
Da minha infância, me lembro de poucos detalhes, como quando ia junto com o meu pai para o serviço dele, e ele nos deixava no “play-ground” do Parque das Águas, que ficava logo em frente ao prédio dos Correios. Lembro-me que meu pai preparava café com leite em garrafinhas térmicas para mim e meu irmão. Lembro de uma vez, era a aniversário da cidade, 16 de setembro, e nossa mãe nos vestiu com roupas iguais. Era uma camisa branca com uma gravatinha esquisita, e uma calça preta. Lembro me que meu irmão vestiu o traje. Mas eu não quis vestir aquele “ultraje”. No final fui colocado em xeque, ou iria a festa da cidade com a roupa, ou ficava “preso” em casa. Decidi ficar em casa do que vestir aquela roupa. Lembro-me uma vez que meu irmão colocou um grão de bico no nariz, e que custaram tirar de suas narinas aquele grão, e o tanto que foi difícil lidar com a situação, já que um de nossos primos (filho do “tio” Toninho – o Levenhagen famoso), tinha morrido de maneira semelhante. Lembro-me de brincar de caça fantasmas com uma boa turma de amigos numa mansão fechada. Foi a casa mais bonita que tinha entrado. Tinha todas as mobílias guadadas com um lençol branco em cima, belos castiçais de prata, que até hoje, tudo o que vi, é motivo hoje, para meus sonhos infantis de assombração. Pouco tempo depois este casarão foi demolido, por ordem do filho, pois o mesmo não aguentou ver a casa em que cresceu vazia de gente, depois que seus pais se foram deste mundo. Lembro-me do perído em que tivemos que mudar para São Sebastião do Paraíso. Tinha 6 anos de idade. Meu pai havia se separado da minha mãe, alguns mêses antes, e vivíamos com ele. Eu e meu irmão tivemos nossa primeira educação numa escola de uma igreja Presbiteriana. Período este que nossa mãe, estava separada do nosso pai. Lembro-me como se fosse hoje, depois de muito tempo sem vê-la, ela apareceu na nossa escola, mas não sem havisar, pois um dia antes, nosso pai, tinha recomendado a mim e meu irmão não conversar com ela, coisa que não entendi a razão naquele tempo. Lembro-me em ter ficado dividido, uma vontade de vê-la e abraçá-la e um vontade de obedecer o mandamento que nosso pai nos havia feito um dia antes. Mas acabei me capitulando em conversar com ela. Ela nos trouxe um presente para cada um. Era uma pistola vermelha que atirava uma seta, que na ponta tinha uma ventosa que pregava em paredes lisas. Meu pai ficou chateado por termos aceitado o brinquedo, recordo. A volta da minha mãe a Caxambu, depois de ter ficado um tempo em Belo Horizonte, fez que tempos depois meu pai pedisse a transferência do serviço dele de Caxambu para a cidade de São Sebastião do Paraíso. Depois dessa mudança, Caxambu se tornou para mim uma cidade de veraneio, como se dizem lá, ou uma cidade só para as férias. Seus custumes, seu povo, nossos parentes ficariam somente na minha memória, que aos poucos iria se esquecendo de tudo, dos nomes, lugares, pessoas, eventos. Tudo ficaria somente registrado em fotografias que minha mãe tinha em seus álbuns de fotos. Éramos conhecidos como os gêmeos. Mesmo depois de muitos anos, os turistas velhinhos, que não sentiam mais o tempo passar diziam: “Quê dê os gêmeos? Nosssa como estão grandes, como eles cresceram!”. Comos se o tempo não tivesse passado para eles, e não esperavam que nós crescéssemos e seríamos sempre crianças de colo. Minha recordação mais forte foi quando meus avós foram de viagem para o sul do Brasil. Foram inclusive para a Argentina. Não sei onde, mas minha avó nos trouxe vários presentes. Entre carrinhos de ferro e um bunequinho que estava na moda naquela época: um Toppo Giggio, ou um ratinho com orelhas grandes, com cabelo espetado, barriguinha de fora. Este bonequinho era o meu alterego, o meu confidente, o meu “Grilo Falante”. Tenho ele comigo até hoje, eu com 40 anos de idade, ou seja, é o meu amigo mais antigo, cerca de 34 anos que nos damos bem, talvez seja porque ele não fala, só escuta. Geralmente as pessoas gostam de gente assim, que somente as escuta. Dizem que pessoas (o boneco) assim não geram muita demanda para o outro. Nós somente pedimos coisas para ele e confessamos nossos segredos ele também. Quando disse que com 6 (seis) anos saímos de Caxambu, e fomos para São Sebastião do Paraíso, foi para enfatizar também o processo de “extradição” da terra natal. De deixar para traz tudo o que afligia a família, e olhar para nossa família que lá ficou, sempre como uma possibilidade de se ter e ao mesmo tempo poder se afastar com data marcada e tempo limitado. Talvez isto tudo é que pode manternos mais ligados na nossa família do que se tivéssemos que viver no mesmo prédio com ela o ano inteiro. Lembro-me não seu o porquê, que sempre fui uma criança sozinha, não obtinha amigos facilmente, e quando os tinha não gostava de perdê-los. Outro pensamento que sempre me veio em mente, principalmente naquela época em que tinha entre 6 e 9 anos, era que, quando completasse os 10 anos, sairía de casa. Achava que um menino de 10 anos já poderia ser dono de si memo. Talvez gostasse de números, pois os tinha como uma marca. Achava que com uma idade de dois dígitos, por exemplo, passando de 9 para 10 anos, me tornaria uma pessoa mais segura e isto me autoriaza a deixar minha casa para sempre. Este pensamento, eu me lembro exatamente quando e quando ocorreu, foi numa esquina do comércio lá de SS do Paraíso, quando eu olhava uma bicicleta “Tigrão”, que era a moda naquele tempo. Nunca fui namorador, numca tive amigos para ir brincar na casa deles, numca fiz uma amizade por mim mesmo, a não ser as que me vinham através de meu irmão gêmeo. Eu tinha cabelos lisos loiros, e ele cabelos anelados pretos, tinha um apelido entre os familiares de “Caetano Veloso”, por ter os cabelos parecidos com o do cantor famoso. Eu, queria ter o cabelo também igual ao dele. Não gostava dos meus. Assim como não gostava e nunca gostei do meu jeito de ser. Meu irmão era meu espelho. Eu era um apendice vivo dele. Até a idade que ele começou a ter idade para não me aceitar mais como companhia, e sair de fininho da minha presença. Nunca aceitei isto como uma natureza das pessoas. Sempre achei que se existisse algo errado, esse errado era eu. Pois quem vivia uma vida cheia de amigos e namoradas era ele e não eu. O que uma criança ou adolescente iria pensar disso? Talvez se eu não fosse um tanto teimoso, em me manter nesta posição, iria me precipitar em coisas que poderiam fugir do meu controle, talvez eu conhecesse os meus limites. Hoje sei de uma coisa, poderia ter feito mais do que fiz, não por que quisesse fazer mais, mas por que deixei de fazer muito o que sempre quis fazer.
A cidade de Caxambu, fica num percurso quase equidistante das grandes capitais do sudeste do Brasil, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Além da facilidade geografica, um denominador comum entre as 3 capitais, também sua boa rede de hoteis, mantém a vinda de congressos de todos os tipos. Sendo que geralmente é na época de baixa temporada que os hotéis fazem a oferta para as universidades. Desta maneira, meus avós, sempre mantiveram contatos com pessoas de várias áreas do conhecimento humano. Pois no tempo que trabalhavam no Parque das Águas, também trabalhavam numa pequena mercearia, que vendia produtos regionais, como queijos, doces, linguiças, etc... Sei por exemplo, que eles conheceram os médicos: o pediátra Dr. Delamare, e o primeiro cardiologista a fazer transplante de coração no Brasil, o Dr. Zerbine. Cantores famosos como Nelson Gonçalves, jornalistas, artistas de rádio, teatro e da televisão. Meu avô fez teatro também, gostava deste meio (no natal, ele sempre vestia de Papai Noel para nossa família e para vizinhos, escolas e quem desejasse a visita). Além de sempre manterem contatos com os profissionais formados naquela região ou que estavam de passagem, tais como: Três Corações (Odontologia), Varginha (Direito), Itajubá (Engenharia), Santa Rita do Sapucaí (Engenharia), Campinas, São José dos Campos, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, e por aí afora...Neste clima de férias, descontração e de trocas de experiências, estávamos lá, sempre em julho, dezembro e janeiro.
Na minha adolescência passava as férias lá, e mais amigos e parentes que vinham de todas as regiões do país. Gostava da maneira que meus avós lidavam com a vida. Meus avós tinham somente o que hoje, eu também tenho, o equivalente ao curso de segundo-grau. Nunca despresei o conhecimento e experiência deles. Quando contava a alguém por exemplo, que minha vó resolveu um problema do nosso prédio, que sempre faltava água, algumas pessoas achavam que eu estava menospresando a inteligência deles. Mas não era o caso. Eu simplesmente ficava exaltado sobre como minha vó de idade já “avançada” para o meu ponto de vista, resolvia com desenvoltura problemas diversos, como a idéia de se construir no nível da rua, exatamente onde o depósito da mercearia ficava, uma grande caixa de água. Ficando do nível da rua, ela não precisava de muita pressão para que a água fluísse para dentro da mesma. Com uma bomba d’ água, a caixa de baixo enviava água para as caixas d’água que ficavam em cima do “terraço” (hoje as pessoas chamam de “cobertura”). Meu avó fazia varetas alumínio, retiradas das antenas de TV, desenhava listras, que representavam os diversos níveis de volume da caixa d’água. Estas varetas ficavam apoiadas sobre pequenas boias, que criavam o empuxo para as mesmas ficarem boiando sobre a lâmina d’água.
Até a própria construção do terraço e seus cômodos de parêdes de madeira, para mim significou um grande aprendizado. Aprendizado sobre força de vontade e determinação dos meus avós. Se não foi o primeiro a ser construído na cidade, foi um dos primeiros.
Outra coisa que para mim significou muito sobre a capacidade de meus avós de enchergarem além do horizonte, foi a construção das células solares de aquecimento da água do banho. Minha vó contou que um dia um engenheiro de Campinas passou na porta da mercearia e ofereceu seu invento para que ela comprasse uma “coisa” que iria ajudar a economizar energia elétrica. Isto foi feito há mais de 25 anos. A poucos anos atrás, quando minha vó ainda estava conosco, aquele engenheiro ainda fazia a troca dos paineis, substituindo-os por tecnologia mais nova.
Meu avô se chamava “seu” Álvaro, e minha avó “dona” Isolina. Os dois tem origens parecidas, pois não foram criados pelos seus pais, não me lembro as razões de cada um. Os dois foram criados por famílias ricas. Mas com um grau de parentesco de tios e tias. Ambas as famílias mandaram os dois estudarem no Rio de Janeiro. Minha vó tem uma foto dela com maiô na praia de Copacabana. No fundo sem prédios, apenas casas e terrenos vazios, isto em 1945. Meu avô tinha um amigo que também foi com ele. Uma vez meu avo me disse que eles eram inseparáveis, tanto é que quando lhe disseram que teria que ir estudar no Rio de Janeiro, ele disse que para ir, seu amigo, que não me lembro o nome, teria também que ir junto. E foi!. Seu colega foi mais persistente que ele mesmo, pois meu avô retornou a Caxambu, mas seu amigo ficou para continuar os estudos. Este último, se tornou um empresário famoso, com família e bem estabelecido no Rio de Janeiro. Segundo meu avô nunca deixaram de se comunicar um com o outro, até que meu avô recebeu a notícia de falecimento dele. Meu avô foi ao seu enterro. Já minha avó foi criada pelos donos do Hotel Copacabana Palace do Rio de Janeiro. Em Caxambu, eles tinham um outro hotem também, chamado de Hotel Glória. Um hotel construído no estilo colonial espanhol, quase um cartão de visitas da cidade. Outra característica de meus avós é que eles eram descendentes de alemães. Meu avô tinha sobrenome Clebicar, com certeza, segundo ele mesmo e minha vó, um aportuguesamento de algum nome alemão que o escrivão não soube escrever, e também seus ancestrais também não souberam ensinar com precisão para o escrivão, nunca mais saberemos a razão. Os descendentes da minha avó já tinham mais história com eles, tinham sobrenome Levenhagen. Segundo minha avó, seu irmão foi à Alemanha e conferiu nos registros de imigração, que a família dos imigrantes tinham sido uma das primeiras a saírem da Alemanha em rumo do Brasil, isto em 1876, temos conosco as cópias dos documentos da época.
Meus avós sempre foram pessoas de visão do futuro. Minha vó me dizia que ela tinha ganho dinheiro com leite, pois naquela época ainda não existia leite em saquinho e pasteurizado. E para quem quisesse leite de manhã cedo, tinha que acordar com o sinal do leiteiro, bem de manhã mesmo. Mas como a maioria das pessoas dormiam tarde, e não acordavam muito cêdo, ela comprava o leite que o leiteiro não vendia, guardava no refrigerador industrial do armazém, e depois vendia para os interessados, no balcão da loja. Ganhou dinheiro também vendendo frango abatido na hora, resfriado ou mesmo assado naquelas máquinas que ficavam rodando os frangos espetados em espetos. Para a execução das tarefas dos frangos ela tinha dois empregados, que me lembro o nome até hoje: Tião (Sebastião) e Laura. Seus rostos não me saem da mente, assim como dos meus avós. Creio eu que meus avós eram bons empregadores. Eram pessoas honestas e trabalhadoras. Os dois tinham mais uma coisa em comum, eles aponsentaram trabalhado juntos no Parque das Águas de Caxambu, no prédio de Hidroterapia. Minha avó ficava no lado feminino dos banhos. Meu avô no serviço masculino. Mas meu avô começou lá como eletricista.Talvez trabalhassem meio horário, não sei, mas quando saiam do serviço, ou antes de entrar, tinham o trabalho na mercearia, que certamente deve ter começado muito tempo depois do trabalho na Hidrominas (o do parque). Lembro-me que minha vó me disse que para montar o negócio, fez um empréstimo com uma pessoa conhecida da família, mas que era agiota. Para quem conhece Caxambu, a primeira mercearia montada pelos meus avós, ficava onde é hoje o Banco do Brasil. Muito tempo depois foi que meus avós compraram um outro terreno que fica hoje onde foi sua última morada, e é hoje onde mora meu irmão mais novo, Raul e sua mulher, Carolina, meu primo Frederico e sua mulher. Meus avós construíram um pequenos prédio, um apartamento e uma loja na frente e dois apartamentos no 2o. andar. Em cima deste segundo andar é onde fica o terraço. Nele é que fazíamos as festas de aniversário de todos, natais, festas de fim de ano, páscoa, etc... Nele encontramos até hoje aquelas cadeiras antigas de ferro, em forma de galhos retorcidos em círculos e folhas em metal. Todas pintadas de branco, contrastando com o chão ladrilhos vermelhos e as colunas também brancas arredondadas. O teto era branco, telhas de amianto pintadas de branco, que com o passar do tempo ficaram escuras, cheias de umidade e fungos que lhe dão o aspecto escuro. Meu avô fez de um dos quartos, sua oficina, lá tinha de tudo o que se poderia imaginar de quinquilharias. Meu avô guardava tudo. A partir desse material que guardava, criava seus passa tempos. Durante seus últimos anos conosco, construiu simbolicamente muitas situações contadas no Novo Testamento. Minha mãe conseguiu que a TV local, EPTV, filmasse sua obra de arte. Antes disso eu também fotografei para ele, não ficou muito bom, pois meu flash estragou e não disparou em muitas das fotos que tirei, perdendo-se muitas, infelizmente não tive tempo de voltar e tirar as fotos novamente.
Meus avós eram pessoas solidárias. Meu avô ajudava a paróquia cedendo o carro e ele como motorista para levar quem necessitasse para onde quer que fosse, a q ualquer hora do dia ou da noite. Minha vó tinha um bazar de coisas usadas. Recebia qualquer objeto para ser revendido. Na venda dos objetos, ela repassava 30% para a igreja, uma entidade chamada CEPAF. Meus avós eram muito religiosos. Tinham suas virtudes e seus defeitos como qualquer ser humano. Meu avô gostava de conversar com todos, contava suas piadas e suas estórias. Não importava-se muito com sua aparência, mas talvez gostasse que minha avó o corrigisse quando estava com roupas sujas, mãos sujas de terra, óculos sujos, e tudo mais. Eles devem ter estabelecidos relações não verbais de carinho e preocupação um com o outro atraavés destes pequenos gestos. Quem não os conhecia poderia não os entender. Minha avó era observadora e meu avô desligado do mundo. Os dois se completavam. Minha avó era a senhora fina e educada e meu avó o oposto, não que fosse sem educação como os dias de hoje são os mau educados, mas ele era despido de maneirismos e formalidades sociais, principalmente quando queria ser notado por isso, mas sabia usar estes mecanismos quando era a hora apropriada de sair do comum. Os dois gostavam muito de viajar. Toda minha infância, eu e meus irmãos e minha mãe, sempre viajamos com nossos avós. Íamos para a cidade do Rio de Janeiro, ou para Caraguatatuba, Ubatuba e Parati, Cabo Frio, Búzios. Recordo-me as dezenas de vezes que nos preparávamos para a viagem. Meu avô possui no início um carro, uma Variante vermelha. Depois ele trocou por uma Kombi. Toda vez que íamos para a praia, passávamos em Aparecida do Norte, onde descíamos e fazíamos um lanche daqueles com frango, farofa, refrigerante e umas duas caixas de isopor, uma para os produtos quentes e outra para os frios. Éramos uma típica família “buscapé”, ou uma “Grande Família” reunidos, como tivéssemos saído das telas da televisão. Sempre que estávamos num lugar diferente, minha avó anotava as informações de tudo, pegava folhetos, telefones, como se realmente fosse comprar ou construir o que estava analisando. Minha avó lia muitas revistas e jornais, e sou grato a ela por ter aprendido a fazer o mesmo. Até num mundo que se tem uma tecnologia com a Internet, o que aprendi a fazer me ajudou muito hoje. Uma vez meus avós chegaram a viajar para Brasília e no complexo de águas quentes em Goiás com um Chevette e uma barraca. Os dois eram como adolescentes mesmo em idade mais avançada. Como toda avó, a minha, sabia fazer doces como nínguém. Lembro-me das ótimas ceias de Natal que passei em Caxambu. Ela fazia vários doces que nem me recordo de seus nomes. O doce que eu mais gostava de comer era o de abóbora com canela, uma delícia. Quando eu voltava sozinho de Caxambu para Divinópolis, minha avó sempre preparava para mim um lanche para que eu comece no caminho. Cortava uns dois pães e colocava fatias de queijo e presunto, depois embrulhava delicadamente em uma folha de alumínio para mante-los frescos. Nos fins de semana em Caxambu, quando eu tinha meus 14 anos, e meu irmão gêmeo também, ela nos dava algum dinheiro para que gastássemos num restaurante famoso da cidade, o Xodó. Era um restaurante no estilo americano, pois naquela época quase tudo era imitação da vida americana, lá reservava o dinheiro para comprar um sorvete, misto quente ou um refrigerante, que eu me lembro até hoje, era o guaraná Antártica com rótulo de papel e canudinho também de papel...
Em 1995, resolvi passar o fim de ano com minha avó, pois no íntimo sabia que ela já não iria ficar conosco por mais tempo. Estas coisas que sinto não se explica com palavras, apenas se sente. E isto eu senti naquela passagem de ano em que estive com ela pela última vez. Fiquei em Caxambu por cerca de 17 dias. Em 16 de janeiro de 1996 embarquei para os Estados Unidos em viagem com minha ex-namorada, Marize. Receiei receber más notícias do Brasil, e pensei comigo, não vou passar o telefone do hotel em que estava, exatamente para não receber notícias, também não liguei. Somente quando retornei, liguei para minha casa. Meu pai atendeu e me deu a notícia da morte de minha vó. Apenas um ano antes, ela tinha feito a mesma viagem que tinha acabado de fazer. Como queria que estivesse com ela um ano antes. Mas meu irmão gêmeo, Álvaro, minha mãe, Dora e minha vó Isolina, resolveram ir de repente para os Estados Unidos, mais exatamente na Flórida, na Disney Word. Meu avô não foi com minha avó.
Em fevereiro de 2002, meu avô estava indo e vindo para o hospital da Santa Casa de Caxambu. Ele estava com pneumonia. Ora melhorava, ora piorava. Mais o quadro dele estava mais para bom, nunca se pensou no pior. Mas mesmo com a mãe da minha filha, Roberta, grávida, e o filho para nascer em julho, tomei a decisão de ir nos 15 dias que me restavam das férias, para Caxambu. Decisão difícil, pois todos esperam que um homem tire férias e passe com a mulher após ter dado a luz. Mas como já disse, foi uma decisão difícil de tomar, mas hoje sei que tomei a decisão certa, pois aqueles forão os últimos dias que passei com meu avó. Ele estava ho hospital internado. Ia visitá-lo sempre que podia, e lhe falava sobre o bebê que iria chegar em julho. A Roberta não gostou muito, mas para ela, aquele sentimento que somente eu poderia ter, e que palavras alguma poderia descrever, me veio a mente novamente. Era como uma repetição do mesmo sentimento que tive em relação a minha avó. Mesmo assim ela “brigou” comigo, pela decisão que tomei. Mas nos dois somos jóvens, e temos muito mais pela frente que o que eu poderia ter com meu avô, naqueles que seriam os últimos dias dele conosco.
Com a Roberta em Divinópolis doente, e eu sozinho em Belo Horizonte, tinha o hábito de ir ao cinema toda noite, ou sair com minha câmera fotográfica, tirando fotos da cidade no entardecer. Mas numa sexta-feira, que para muitos já eram motivo de alegria, por chegar o fim de semana, especialmente naquela sexta-feira, não conseguia ter o mesmo entusiasmo dos outros dias. Era como se uma voz me dissesse: “vai cêdo para casa hoje!”. E assim o fiz. Fui dormir cêdo nesta noite. Acordei lá pelas 01:30 da madrugada de sábado. Não custumo acordar a noite nem para ir ao banheiro. Não que tenha o sono pesado, pelo contrário. Mas acordei assustado pois tive um pesadê-lo. Fiquei acordado na cama durante alguns minutos. De repente me veio um sentimento ruim, após este sentimento ruim, que a mim me parecia, veio um cheiro desagradável no meu quarto, nunca tinha sentido isto antes. Não era do banheiro pois ele estava limpo, e este nunca apresentou problemas, não vinha da cozinha pois a porta do quarto estava fechada, não vinha da rua, pois durmo com janelas fechadas. Após raciocinar durante alguns minutos sobre a origem do cheiro passei a ter mêdo. Não do cheiro propriamente dito, mas o significado dele para mim. Pensei no meu avô, mas não quiria incomodar a minha mão ligando tarde da noite. Voltei a me concentrar a voltar a dormir. Fui acordado lá pelas 2:30 da manhã, era a minha mãe me ligando, e ela me havia dito que encontrara o meu avô morto na cama, e provavelmente ele teria morrido entre 00:30 e 01:00, pois à meia noite ela esteve com ele, e nada parecia estar fora do normal. Chorei muito ao escutar a notícia, mesmo estanto quase que preparado, mas acho que nunca estamos. Depois de chorar por algum tempo voltei à dormir. No meu sonho estava dormindo no meu quarto, e meu avô abriu a porta, com aquelas roupas simples que custumuva usar, sapato preto, calça cinza daquele pano fino, e uma camiza de algodão com nylon, que ficava fácil de passar. No sonho ele sentou-se na beira da cama e veio falar-me. Eu imaginei que tudo o que havia passado antes é que era um sonho (ou pesadêlo), pois estava vendo-o vivo na minha frente, tive até a chance de perguntar para ele se estava vivo ou morto, mas não me lembro da resposta, pois era tão real que tinha certeza o que tinha se passado era mesmo um sonho. Mas voltei a não tê-lo no meu sonho, e acordei às 05:00 horas da manhã, novamente era um telefonema. Era a minha mãe me avisando que meu irmão iria passar na minha casa, em BH, para que eu e a família dele, fóssemos para Caxambu, no enterro do meu avô.
Meus avós nos deixaram muito cêdo, gostaria que eles conhecessem minha filha, a Maria Eduarda. Meus avós eram os meus padrinhos de batismo. Tenho no meu álbum as fotos do dia do batismo, meu avô de terno com uma gravata fina e com aquele bigodinho fininho, que custumava-se usar naqule tempo e minha vó com os cabelos soltos e com uma roupa floral, isto tudo numa foto preta e branca.
Para meus amados avós, Isolina Levenhagen Clebicar e Álvaro Ramos Clebicar.
do seu neto: Haroldo Kennedy Clebicar Nogueira, que não teve a chance de realizar o grande desejo de sua avó: de vê-lo formado e com filho(s).
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